sábado, 4 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Os Trapalhões: a série


A série “O Cinema dos Trapalhões” (TV Cidade), apresenta seu primeiro convidado, o Prof. Dr. Sidney Leite, que analisa numa perspectiva ampla, o que foi e o que representa o cinema produzido pelo quarteto mais querido do Brasil. Assistam: https://www.youtube.com/watch?v=9hJ221DysEg&feature=youtu.be

Os Trapalhões: Alípio Rangel


ALÍPIO RANGEL
Produtor

Nos filmes dos Trapalhões você integrou a equipe de produção em diversos longas-metragens. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com eles?
Minha primeira chance no cinema foi dada pelo Renato Aragão, quando ele foi produzir o filme O Trapalhão na Arca de Nóe. Eu tinha vindo ao Rio para passar um fim de semana e depois ir a Campinas fazer pós-graduação. Tudo deu errado; e, ele vendo minha decepção, perguntou se eu queria fazer produção de cinema. Na época, meu irmão Del Rangel foi o diretor do filme e também me bancou. Comecei minha vida cinematográfica no único filme que não teve a participação do quarteto.

Realmente você chega no momento mais conturbado da história dos Trapalhões. Causou-lhe estranhamento trabalhar numa produção sem os outros três icônicos Trapalhões?
Sim, foi complicado fazer o filme sem eles. Até o próprio Aragão sentiu-se órfão, pois foram anos e anos trabalhando juntos. Eles todos sentiram isso, tanto é que só chegaram a fazer um filme. Não havia como ficarem separados.

Dedé Santana, Mussum e Zacarias fizeram, concomitantemente a O Trapalhão na Arca de Noé, o filme Atrapalhando a Suate. Além da competição nas salas de cinema, houve também nos bastidores?
Sinceramente, não sei quanto aos quatro; mas havia entre as equipes uma disputa para ver quem produzia o melhor filme. Ficávamos um acompanhado as filmagens do outro, uma curiosidade normal, absolutamente normal. Mas nos falávamos sempre, e teve até momentos em que uma equipe ajudou a outra. No decorrer das filmagens, emprestamos negativos para eles, já que a encomenda da DeMuZa ainda não havia chegado e não podiam parar as filmagens.

É verídica a história de que Renato Aragão queria fazer de O Trapalhão na Arca de Noé o grande filme da sua carreira para provar aos três integrantes recém-separados que ele teria condições de seguir sem eles?
Desconheço esse assunto. Os quatro não estavam felizes, e não havia como fazer um grande filme sem todos juntos. A separação deles foi apenas no cinema, eles continuavam a ser Os Trapalhões na TV Globo. Não houve problemas na amizade deles. Apenas não filmaram juntos uma única vez.

Você é sobrinho do Renato Aragão. Isso, de certa forma, facilitou seu ingresso no mercado cinematográfico?
Na verdade, na época o mercado de cinema era muito pequeno; e eu passei a fazer parte da equipe fixa da Renato Aragão Produções, que era a empresa que produzia os filmes dos Trapalhões. Depois que saí da Renato Aragão Produções, fiz mais uns quatro ou cinco filmes; e, então, segui minha carreira de administrador de empresas.

Além de você, outros integrantes da família do Renato Aragão chegaram a trabalhar com ele no cinema. Para citar alguns: Evelise Aragão, Caxa Aragão, Paulo Aragão, Del Rangel, entre outros. O fato de empregar muitos parentes não causava ciumeira no restante da equipe?
Não, isso nunca aconteceu. O cinema sempre foi uma “indústria familiar”, e o fato de ele ter pessoas da família nunca causou problemas para ninguém. O Renato Aragão sempre foi uma pessoa extremamente profissional, sempre deu chances a muitas pessoas, independente de ser do mesmo sangue ou não. A Renato Aragão Produções foi uma escola de cinema para muitos profissionais; e todos os que tiveram a sorte de trabalhar para Os Trapalhões, trazem, com certeza, dentro de si lembranças maravilhosas e orgulho de terem feito parte desse grupo inesquecível.

A R. A. Produções era uma produtora gigantesca, com estúdios e infraestrutura de primeiríssimo nível. Fale mais a respeito da R. A. Produções.
Sim, era uma grande produtora. Mas a verdade é que, já naquela época, a maior parte dos equipamentos eram terceirizados; e acho que ainda hoje é assim. Tínhamos câmeras, moviolas etc.; entretanto, a grande maioria dos equipamentos era alugado na época dos filmes.

O tratamento era igual? Tinha espaço para desconfiança?
Posso te afirmar que o fato de ser da família trazia exigências ainda maiores, só fazia o filme seguinte quem realmente demonstrasse um grande profissionalismo. O Renato Aragão dava a chance, e quem a tivesse que tratasse de trabalhar sério para seguir com o grupo. Eu sou prova disso. Ele me deu a chance; e, mesmo sendo da família e um cara com formação superior completa, tive que começar como estagiário do assistente de produção. Lembro que, dentre outras funções, servia cafezinho e refrigerante no set.

Interessante essa informação. Todos vocês começavam em cargos mais baixos e iam progredindo à medida que iam evoluindo no trabalho?
Isso aconteceu mais especificamente comigo, pois não tinha experiência nenhuma de cinema. As pessoas da família que trabalhavam nos filmes já eram profissionais da área.

Dedé Santana conseguiu emplacar o Dino Santana em algumas produções cinematográficas. Não me recordo se tinha mais algum familiar ligado ao trabalho dele em Os Trapalhões. Mussum e Zacarias tinham?
O Dino era outra pessoa bastante séria e profissional. Teve a chance dele, fez alguns filmes; mas, ao mesmo tempo, ele tinha outros trabalhos como ator e produtor. O Zacarias e o Mussum nunca indicaram nenhum familiar para trabalhar nos filmes.

Os Trapalhões no Rabo do Cometa, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz e Os Três Mosquiteiros Trapalhões foram produções em que você trabalhou. Gostaria que falasse como era trabalhar na equipe de produção destes filmes.
Era um trabalho árduo. Tínhamos muitos contratos com empresas como Embrafilme, exibidores e distribuidores que estipulavam datas para que o filme estivesse pronto. Não havia chance para erros. Os filmes dos Trapalhões não podiam se dar ao luxo de ficar dois ou três meses para serem produzidos. Eram filmes produzidos em quatro semanas, não mais que isso. A palavra atraso não fazia parte do nosso vocabulário.

Conte mais a respeito do seu dia a dia na produção dos filmes. Que faz exatamente a equipe de produção de um filme?
Falando resumidamente, esse cara viabiliza a produção do filme num todo. Transforma em realidade o que o roteiro pede, é quem obtém os meios materiais necessários para a realização das filmagens. É o elo entre toda a equipe do filme.

Você disse que os filmes eram rodados, normalmente, em quatro semanas. Em que meses do ano eram filmados?
Geralmente, as pré-produções começavam em março ou abril; e o filme se estendia até no máximo o início de junho para então estrear nas férias do meio de ano. O segundo filme do ano começava em agosto ou setembro para ficar pronto em dezembro e ser exibido já no início das férias de fim de ano. Eram dois filmes por ano.

Como era o ambiente de filmagem?
Melhor impossível. Conheço Os Trapalhões há pelo menos quarenta e cinco anos e nunca vi nenhum deles alterar o tom de voz. Nunca ouve qualquer estresse em função de qualquer um dos quatro. Eu costumo dizer que o set de filmagem era mais engraçado e prazeroso do que os próprios filmes. Você está me fazendo ficar emocionado e saudoso. Esses quatro caras deviam ser proibidos de morrer. Não existe hoje ninguém como o Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Pena não haver making of dos filmes. Esse material de bastidores poderia nos revelar muito mais dos Trapalhões, não é?
Alguma coisa existe, sim. Principalmente dos filmes mais recentes. Antes não existia muito essa mentalidade de se produzir essa peça; mas, com certeza, é uma mídia fantástica e os bastidores dos filmes dos Trapalhões daria um outro filme. Era pura alegria.

Quais as maiores dificuldades em produzir um filme dos Trapalhões?
Não concordo quando você usa a palavra “dificuldades”, prefiro usar “desafios” porque, sinceramente, não havia dificuldades. Os desafios eram muitos; pois, como coloquei na resposta anterior, não havia chance de errarmos, já que era sempre esperado em todo o Brasil que nas férias de junho e de fim de ano tivesse um novo filme dos Trapalhões. Veja só que belo desafio. As pessoas esperavam ansiosas por essas datas e sempre com a expectativa de ser um filme melhor que o anterior. Era muito bom fazer parte desse ambiente.

Você trabalhou em outras produções cinematográficas sem os Trapalhões. Que tinha de diferente? Que tornava uma produção fílmica dos Trapalhões diferente das demais?
Não podemos ser hipócritas, e é certo que os filmes dos Trapalhões tinham sempre dinheiro. Não havia a incerteza se ficaria pronto ou não. Sabíamos que semanalmente seu cachê estaria depositado na sua conta bancária. Não quero dizer com isso que se esbanjava dinheiro. Não faltava, mas não havia espaço para gastos excessivos. O orçamento tinha que ser honrado fielmente. A maior diferença que senti quando trabalhei em outros filmes foi, sem sombra de dúvidas, o ambiente. Com Os Trapalhões era puro prazer.

Mas eles pagam melhor ou era tudo tabelado?
Existe uma tabela salarial mínima exigida pelo sindicato, e a Renato Aragão Produções pagava sempre acima desses valores. Era uma produtora reconhecida no mercado como a que melhor pagava.

Você é um dos profissionais que mais tempo trabalhou com Os Trapalhões. Como e por que conseguiu ficar tanto tempo com eles?
Sou administrador de empresas; e isso também foi um fator decisivo, pois passei também a trabalhar em outras áreas da Renato Aragão Produções. Com certeza, fui um dos que mais tempo trabalhou com eles.

Chegou a fazer trabalhos administrativos dentro da R. A. Produções? Se sim, qual?
Eu, como administrador de empresas, tive a chance de passar nas áreas administrativa, financeira e até na comercial. Foi uma experiência riquíssima.

Renato Aragão, além de artista, também gostava da burocracia da empresa?
O Renato Aragão não deixava de ir à produtora. Não sei como ele arranjava tempo para ainda dar expediente na empresa. Ele acompanhava tudo. Sabia também do que se passava com cada funcionário, que, aliás, eram pessoas que frequentavam inclusive a casa dele. Iam às festas, desde o jardineiro, faxineiro, a moça do cafezinho até os diretores. Nunca houve qualquer discriminação, os mais humildes também mantinham uma relação de amizade e tinham o mais absoluto acesso à ele.

Podemos considerar Renato Aragão um dos maiores e melhores produtores de cinema do país?
Posso te dizer que ele foi, sim; mas acho que uma das maiores contribuições do Renato Aragão para o cinema também foi o fato de ele ter formado muitos e muitos profissionais, ainda mais numa época em que não havia faculdades de Cinema ou de Audiovisual. A Renato Aragão Produções foi, sem sombra de dúvidas, uma grande escola de cinema.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Sim, ele é um cara que gosta de qualidade. É exigente, mas extremamente cordato. É uma pessoa que sabe dividir, sabe ouvir, sabe voltar atrás. Mesmo sendo o dono da bola, sempre respeitou cada profissional que fazia parte de sua equipe, nunca impôs nada a ninguém.

Quem era o maior comediante do grupo?
Cada um tinha/tem seu estilo. O Mussum era fantástico, com sua simplicidade, seu humor fácil e gostoso. O Zacarias, com aquela ternura dele, fazia um humor jamais visto. O Dedé é o maior “escada” que conheço, não existe ninguém como ele. O Renato Aragão é um cara engraçado por natureza, ele nasceu para fazer rir.

Quem, na sua opinião, é o maior vilão de todos os tempos nos filmes dos Trapalhões: Eduardo Conde, Carlos Kurt ou Roberto Guilherme?
Que saudades dessas feras. Como já falei, você está me emocionando e fazendo-me ficar nostálgico. Tive pouquíssimo contato com o Eduardo Conde; o Guilherme para mim não era um vilão, e sim mais um Trapalhão. Para mim, o Carlos Kurt é insubstituível.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Filmes inocentes, sem a pretensão de serem acadêmicos. Filmes produzidos com amor. Filmes pensados para as crianças e adultos que trazem dentro de si a criança que já foram um dia. Os Trapalhões queriam fazer as pessoas felizes, isso é o que interessava para aquele quarteto fantástico. Eles conseguiram, com seus fimes, alegrar mais de cem milhões de pessoas numa época em que o Brasil estava chegando aos cem milhões de habitantes. Isso não existe no mundo.

Por que os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Sou um cara muito franco e direto... é melhor que eu me exima de dar essa resposta!

Você, além de ter trabalhado com os Trapalhões, conviveu com eles por mais de 45 anos. Fora do cinema e da televisão eles eram humildes? Como eram sem as máscaras”?
Eles eram Os Trapalhões, sempre alegres, bem-humorados, sacanas, piadistas. Ajudavam muito a quem precisava deles. Os Trapalhões que eu conheci e com quem convivi não tinham máscaras e eram humildes, sim. Fico muito chateado, na verdade puto mesmo, quando vejo algumas matérias na mídia ou em redes sociais falando mal deles ou do Renato Aragão, que sempre foi o mais visado por ser o líder, o pai dos Trapalhões. Esse Renato Aragão de que a imprensa fala ou falava é desconhecido para mim.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular dessa sua convivência com eles.
É impossível falar de um fato ou curiosidade apenas. Uma coisa que as pessoas não sabem ou talvez não acreditem e que era algo que chamava a atenção de quem convivia com aqueles quatro Trapalhões é que eram muito amigos realmente. Posso te garantir que se amavam. Eram como irmãos que estavam sempre se sacaneando. Eram extremamente unidos. Um morava no coração do outro, um sabia identificar o olhar do outro. Eles se olhavam e já estavam se comunicando. Eram uma verdadeira família. Só quem conviveu intimamente com eles pode entender o que representavam um para o outro. Eu sou um cara extremamente feliz por ter tido a dádiva de viver na família Os Trapalhões. Aproveito para te agradecer por esses momentos. Como já disse mais de uma vez: fiquei profundamente emocionado, voltei num tempo de pura felicidade e alegria, tempo que infelizmente não volta mais. Se você me perguntasse: “Você faria tudo de novo?” Eu te diria que faria com ainda mais vontade, iria me entregar ainda mais, daria ainda mais o meu sangue, meu amor, minhas horas de vida profissional dedicando-me a eles. Viva os eternos Trapalhões!

Os Trapalhões: Alexandre Boury


ALEXANDRE BOURY
Diretor

Você encarou o desafio de dirigir o programa A Turma do Didi na TV Globo, a partir de 1998. Vocês enfrentaram muita resistência dos fãs mais saudosos dos Trapalhões, que enxergavam neste programa uma heresia contra Os Trapalhões e sua formação original?
Não enfrentamos resistência, pois o retorno do Renato Aragão se deu muitos anos após o grupo ter acabado; e, naquela época, a internet ainda não existia e a comunicação dos saudosos fãs não se manifestou a ponto de ser notícia.

Tadeu Mello (Tatá), Edson Cardoso (Jacaré) e Marcelo Augusto (Marcelo) eram a representação de Zacarias, Mussum e Dedé, respectivamente?
Não há como negar a semelhança dos arquétipos; porém, os de A Turma do Didi e Os Trapalhões são personalidades diferentes.

A Turma do Didi ficou no ar entre outubro de 1998 e março de 2010. Um recorde até hoje não igualado por programas de humor, principalmente aos domingos. A que se deve esse feito?
Ao talento de Renato Aragão.

O ator Roberto Guilherme é uma presença importante nos programas do Renato Aragão, tanto em Os Trapalhões como em A Turma do Didi. Entretanto, no cinema, sua participação é quase nula. Qual a razão?
Ele é um ator “escada”, de esquetes e não um ator que constrói uma personagem. Um filme tem que trazer elementos diferentes do programa.

Como foi dividir com o Paulo Aragão a direção dos filmes O Trapalhão e a Luz Azul e Didi, O Cupido Trapalhão?
Muito prazeroso. Ele é uma pessoa incrível em todos os sentidos.

Funciona esse método de dividir a direção?
Se houver sintonia, sim.

Um fato importante em O Trapalhão e a Luz Azul é a participação do Dedé Santana no filme. Como foi dirigir o Dedé?
Foi bem tranquilo.

Dedé Santana chegou a dirigir alguns filmes dos Trapalhões. Ele tentava acompanhar seu trabalho?
Não, só entrava no set para atuar.

Qual a razão da participação do Dedé nesse filme ser tão curta?
Pelo roteiro, esse era o único personagem em que Dedé se encaixava; e também não foi tão curta assim a participação dele.

Após O Trapalhão e a Luz Azul, você dirigiu Um Anjo Trapalhão. O convite para dirigir esse filme deve-se ao sucesso obtido no trabalho anterior?
Esse foi o primeiro trabalho que fiz com o Renato. Foi um Especial de Natal produzido pela TV Globo e exibido em 24 de dezembro de 1997. A decisão de exibi-lo no cinema foi devido ao seu sucesso na televisão.

Por que dessa vez você divide a direção com o Marcelo Travesso e não com o Paulo Aragão?
Eu ainda não conhecia o Paulo Aragão e havia feito a novela Vira-Lata com o Marcelo; e o Mario Lúcio Vaz, diretor artístico da Globo, nos escalou para dirigir o especial.

Qual a razão da ausência de Dedé Santana nesse filme?
Ele era funcionário do SBT, e o especial era da TV Globo.

É verdade que Renato Aragão costuma participar de todo o processo fílmico de uma produção? Ele chegava a interferir em outros setores que não o dele?
O Renato, além de fazer o personagem Didi Mocó, é também produtor de seus filmes e exerce essa função de maneira muito competente.

Em Didi, O Cupido Ttrapalhão você volta a dividir a direção com Paulo Aragão. Nunca pensou em assumir sozinho o comando da direção de um filme do Renato? Nesse filme você teve a oportunidade de dirigir Mauro Mendonça, Oscar Magrini, Rosamaria Murtinho, Herson Capri, entre outros grandes atores. Entretanto, no mesmo filme, você dirige a apresentadora Jackeline Petkovic, o cantor Daniel, a dançarina Dany Bananinha, o ex-BBB Kléber Bambam, entre outros. Um desafio, não?
Tive a oportunidade de dirigir sozinho um dos filmes do Renato; porém, optei por dividir a direção com meu pai, Reynaldo Boury, que na época estava aposentado pela TV Globo. Não há dificuldades, se for respeitado o limite de cada “ator”.

Seu último filme com Renato Aragão é Didi Quer Ser Criança. Por que foi o último?
Após dez anos trabalhando com o Renato, decidi que era hora de voltar às novelas. Queria me integrar novamente em outros projetos.

Nesse trabalho você divide a direção com Reynaldo Boury. Como foi essa parceria?
Conforme disse acima, dividi a direção com meu pai Reynaldo Boury e foi muito bom poder trabalhar com ele no cinema, um campo novo para ele, que tem mais de sessenta anos de televisão. Atualmente, ele é o diretor geral das novelas do SBT.

Como foi dirigir Lívian Aragão? Já era perceptível a ideia de transformá-la em uma atriz?
Lívian Aragão sempre mostrou ter um talento nato para ser atriz. Em nada me surpreende ela estar cada vez mais em evidência.

O cineasta J. B. Tanko foi o profissional que mais dirigiu os filmes dos TrapalhõesVocê procurou fruir alguma característica dele em seu trabalho?
Não. Cada diretor tem suas referências; e eu gosto muito de Woody Allen, Mel Brooks, George Lucas e James Cameron. No cinema nacional admiro Daniel Filho e José Padilha.

Qual a sua opinião a respeito de J. B. Tanko?
Um ícone para o cinema brasileiro, com uma história belíssima e diversificada, com trabalhos de diferentes naturezas, tanto no Brasil como no exterior.

J. B. Tanko, Fauzi Mansur, Victor Lima, Adriano Stuart, Daniel Filho, Del Rangel, Carlos Manga, Roberto Farias, José Alvarenga Júnior foram alguns dos cineastas que dirigiram Os Trapalhões. Em sua opinião, qual foi o maior trabalho de direção já realizado em um filme dos Trapalhões?
Os Saltimbancos Trapalhões, de J. B. Tanko.

Como você classifica o cinema dos Trapalhões?
Marcou toda uma geração durante anos. Eram filmes que toda a família ia ao cinema para assistir. Todo ano havia uma expectativa para o próximo filme deles.

Qual foi o maior filme que você dirigiu com o Renato e qual ficou aquém do que você queria?
O maior foi Didi Quer Ser Criança, o que ficou aquém do que eu queria foi O Anjo Trapalhão, pois foi um produto feito para a tevê e que acabou indo parar no cinema. O enquadramento foi para 3/4, formato de televisão na época, e não 16/9. O orçamento e o equipamento técnico não eram de nível cinematográfico.

Que representa na sua carreira ter dirigido Renato Aragão?
Representa um grande orgulho, uma honra e um presente de ter tido a oportunidade de aprender a dirigir comédias com o maior palhaço do mundo: Renato Aragão, a quem só comparo ao Charles Chaplim.

Os Trapalhões: Alex Gill


ALEX GILL
Ator, músico do grupo Polegar

Você atuou no filme Uma Escola Atrapalhada. Como e em que circunstância recebeu o convite para atuar nesse filme? Como foi a experiência?
Sim, atuei junto com o grupo Polegar, que foi convidado pelo próprio Renato Aragão para participar do filme. Assim como todos da minha banda, eu fiquei super feliz, pois, desde criança, sempre fui muito fã do trabalho dos Trapalhões. Mesmo não sendo ator, foi uma experiência única e muito gratificante estar ali aprendendo e participando com todo o elenco, a produção e ainda participando do último filme que reuniu os quatro Trapalhões juntos.

Que representava, naquele período, protagonizar um filme com Os Trapalhões?
Os Trapalhões eram sucesso absoluto nos filmes e no programa de tevê nessa época, e todo artista que participava dos filmes deles automaticamente era super bem-aceito pelo público. Creio que isso também tenha ajudado a nos dar mais prestígio.

Você pertencia ao grupo Polegar, um dos maiores fenômenos musicais de todos os tempos no Brasil. Esse filme, de certa maneira, era uma forma de beneficiar a imagem do grupo, dos Trapalhões ou dos dois?
Eu creio que era bom para todos. Bom para eles (Os Trapalhões), por ter artistas em evidência participando do filme; e bom para nós, porque acabava agregando mais uma modalidade na nossa carreira. Aprendemos muito com a equipe, a direção e a produção.

O número de discos vendidos e de shows aumentaram após esse filme?
Bem, não sei dizer números específicos, mas acredito que tenha contribuído também para a conquista dos nosso discos de platina e platina duplo (marca superior a quinhentos mil discos vendidos). A rotina de shows sempre foi muito intensa, fazíamos shows quase todos os dias. E, nesse período da gravação do filme, conseguimos dispor um pouco mais do nosso tempo livre para as filmagens. Mesmo assim, nos finais de semana não tínhamos folga, estávamos sempre viajando por todo o Brasil.

Quais as suas maiores lembranças do filme Uma Escola Atrapalhada?
Era tudo muito legal, meio mágico até. Nós fizemos reuniões no início, tipo um laboratório, em que a produção nos estimulava a criar nossos próprios personagens (garotos vindos do interior para a capital) e até os atores profissionais nos ajudavam, dando dicas de interpretação, dando alguns toques. Portanto, foi muito gostoso ter participado dessa experiência.

Como foi a sua participação no filme Uma Escola Atrapalhada, como compôs o seu personagem?
Bem, a participação foi da banda toda. Eu, como o caçula da turma, não tive um papel muito expressivo. Mas dediquei-me de coração para fazer o melhor que eu pude e contribuir nas cenas em que eu estava escalado para atuar com meus companheiros de banda.

Quais as lembranças de bastidores do filme? Como foi o seu contato com Os Trapalhões?
Ah, era muito legal, quando encontrávamos os atores nos sets de filmagem, O Selton Mello, o Leonardo Bricio, o Supla, a Angélica, o Nill (Dominó) e todos os outros atores. Eu sempre pegava dicas de interpretação com os veteranos. E, quando não estávamos filmando, conversávamos bastante também, brincávamos de imitar personagens de desenhos infantis pelos corredores, cantávamos músicas. Enfim, era uma farra, quando estávamos de folga das cenas. Afinal, todos nós éramos muito novos na época.

O filme foi o último com a participação de Zacarias, que faleceu naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
Como era tudo muito corrido, não tivemos um contato mais próximo com Os Trapalhões, durante as filmagens. Mas, sempre que nos encontrávamos com eles, sempre foram muito simpáticos e carinhosos com a gente. Sim, o Zacarias estava um pouco abatido. A gente percebia um cansaço nele; entretanto, não imaginávamos que ele estivesse tão doente. De qualquer forma, sempre levarei uma lembrança fantástica desse quarteto sensacional que me alegrou e alegrou o nosso povo inúmeras vezes com sua criatividade, suas brincadeiras, suas piadas... Eu defino Os Trapalhões como quatro adultos que tinham um coração de criança, porque eles dedicaram a maior parte do seu trabalho ao público infantil.

Os personagens de Zacarias, Dedé Santana e Mussum fizeram apenas uma breve aparição. A sensação é que pareciam figurantes no filme. Isso procede?
Eles compunham junto com o Didi os seus personagens; no entanto, a trama toda se voltava mais para o Didi, que liderava a turma toda.

Havia o interesse dos Trapalhões e de vocês, do grupo Polegar, em realizar mais filmes juntos?
Sim, havia interesse, sim. Mas, depois que o Zacarias faleceu, acredito que eles se desmotivaram um pouco; e acabou não acontecendo.

Quem era o maior comediante do grupo?
Cada pessoa tem o seu gosto; e acho que, em cada situação que eles criavam, cada um deles brilhava de forma diferente. Mas acredito que, se não estivessem os quatro juntos ali, a coisa não teria dado certo. Era um trabalho de equipe, ao meu ver; e, assim como numa banda, todos são importantes para a coisa acontecer. Nos bastidores, o Mussum era muito divertido, contava piadas; o Zacarias estava visivelmente cansado; o Dedé e o Didi eram um pouco mais reservados; mas todos sempre muito simpáticos com a gente.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. É verdade? Ele acompanha tudo?
Algumas vezes ele acompanhava; outras, não. Mas, quando tinha cenas com ele participando, a gente procurava dar o melhor, para não ter que repetir muitas vezes. No geral, sempre repetíamos as cenas, para dar opção de tomadas diferentes das câmeras. Isso era normal.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e
estrelados pelos Trapalhões?
Isso eu não sei dizer, até porque não faço parte do mundo do cinema, minha área é musical. Mas acho uma pena essas pessoas não reconhecerem o trabalho desses quatro astros, que eu considero como “gênios do humor” da época.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Bom, eu classifico um cinema leve, criativo, divertido, com intuito de entreter as pessoas. Ao mesmo tempo, as histórias sempre passavam mensagens para fazer as pessoas refletirem mais sobre as situações e temas abordados. No caso do filme Uma Escola Atrapalhada, por exemplo, foram abordadas diversas questões referentes a comportamento, convivência social, imprudência, descuidos com gravidez precoce, discriminação por classe social etc... Acho que esse tipo de coisa ajuda a alertar as pessoas na vida real.

Gostaria que falasse o que representou para você trabalhar com Os Trapalhões, que carregaram, por muito tempo, o cinema nacional nas costas.
Para mim, foi uma experiência única, como já disse anteriormente, até por já ser fã do trabalho deles desde criança. Depois, conhecê-los pessoalmente e ainda atuar juntos em um filme. Foi um presente maravilhoso toda essa experiência de filmagem, responsabilidade, comprometimento com a equipe toda, o elenco, saber como funciona todo o mecanismo de filmagem, pois sempre são feitas várias cenas para escolher a melhor e tornar a história mais emocionante para o público.

Os Trapalhões: Alcione Mazzeo


ALCIONE MAZZEO
Atriz

Você trabalhou com Os Trapalhões no filme O Incrível Monstro Trapalhão. Como e por quem recebeu o convite para trabalhar com eles?
Foi o Renato Aragão quem me convidou para fazer a mocinha do filme. Nessa época, eu também gravava o programa dos Trapalhões na TV Globo.

Que representava, naquele período, trabalhar em um filme com Os Trapalhões?
Era da maior importância para qualquer atriz; e, para mim, muito especial, pois, além de trabalhar com o grupo de maior sucesso no mundo infantil, tinha grande afeto por eles. Senti-me homenageada, ao ser escolhida para fazer a mocinha do filme, ao lado do Didi.

Onde essa produção foi filmada?
No autódromo de Interlagos e no Playcenter, o saudoso parque de diversões, em São Paulo.

Durante as filmagens havia muita improvisação?
Sempre!! Eles eram muito criativos e novas ideias não paravam de surgir.

Quais as recordações que possui do filme?
As melhores possíveis. Tudo realizado sempre na maior alegria e vitalidade!! Muito divertido trabalhar num mundo mágico, que é um parque de diversões, apoiados numa excelente equipe técnica, com colegas amorosos e talentosos como Eduardo Conde e Felipe Levy. As cenas no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, atraíam muitos expectadores, a maioria jovens. Nessa época, eu tinha uma imagem sexy, por ter sido modelo, capa da Ele Ela, Playboy, entre outras revistas do gênero. Só que sou muito simples e aparecia de sandalinha baixa, jeans, sem maquiagem, cumprimentando todo mundo. O público estranhava...

Como foi o seu contato com o quarteto?
Eles sempre foram muito carinhosos e cuidadosos comigo!! Guardo até hoje uma ametista que o Zacarias me deu. Mussum e Zacarias brincavam sempre. Nunca os vi reclamar, fofocar ou se queixarem. Didi e Dedé já eram mais sérios; mas o astral do grupo sempre foi alto, sempre positivo!

Quais as lembranças da direção do cineasta Adriano Stuart, nessa produção? Como ele conduzia todo o processo fílmico?
Já havia trabalhado noutros filmes com o Adriano; mas nesse ele estava mais brincalhão, super à vontade com as cenas de corrida, tombos e brigas, já que tinha vasta experiência no humor pastelão e estava muito acostumado a dirigir Os Trapalhões.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia, rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Puro preconceito!! A situação está bem melhor agora. O humor está em alta; mas, até pouco tempo atrás, as pessoas viam o gênero como algo menor. Os atores da linha de shows também não eram valorizados, nem pelos próprios colegas, gerando a necessidade de se migrar para o Drama, a fim de ganhar respeitabilidade. No entanto, é muito difícil fazer rir, é preciso excelente timing!! E, em geral, os atores de Comédia brilham em papéis sérios, como o Chico Anysio, no filme Tieta do Agreste.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Ingênuos, românticos.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato que tenha presenciado como testemunha ocular.
Tanto tempo... difícil lembrar!! Mas algo que lembro até hoje é que todos ficamos hospedados no mesmo hotel, num lugar afastado, em São Paulo. Jantávamos todos juntos, menos o Renato Aragão, que, noutra mesa, negociava com empresários, arquitetava novos projetos. Impressionava-me sua mente voltada constantemente para os negócios. Deve ser por isso que é tão bem-sucedido, realmente não para!! Sou muito grata aos Trapalhões originais: Didi, Mussum, Zacarias e Dedé Santana, pela oportunidade que tive em trabalhar tantas vezes com eles, por tudo que aprendi e pelo carinho com que sempre me trataram. Gostaria muito que a imagem deles ficasse preservada na imaginação do público brasileiro! Viva Os Trapalhões!!



Alcione Mazzeo nos bastidores com Os Trapalhões.