sábado, 1 de dezembro de 2012

Até 2013!!!


Este ano que se passa foi o da decolagem: Júri no 23º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo e no Festival de Cascavel, no Paraná. Homenagens no Festival de Disseminação, em Minas Gerais; em Cascavel e; também em Taquary, Pernambuco.
 
Participei de dois programas, um de rádio (Rádio CBN) e outro de televisão (Portal Cronópios). Fora as colaborações para blogues e sites de cinema.
 
Faço aqui uma saudação especial a todos vocês que acompanharam o Os Curtos Filmes neste ano. Meu agradecimento aos 123 seguidores deste trabalho (no ano passado eram 69).
 
Agradeço a Rejane Arruda, grande parceira do blog que, com uma participação efetiva, contribui para a construção do conhecimento cultural cinematográfico.
 
No próximo ano o blog irá completar 5 anos ininterruptos de atividades.
 
Em janeiro volto com a série ‘5 Estrelas da Boca’, desta vez retratando a atriz Zilda Mayo; continuaremos, até outubro, com a série Memória Cinematográfica – Desvendando R.F.Lucchetti, as lembranças do maior roteirista do país.
 
Em 2013 lanço outra série, com nomes de importância do nosso audiovisual em longas entrevistas: Ana Maria Magalhães; Lady Francisco; Bruno Mazzeo; João Camargo, Rossana Ghessa; Vanessa Gerbelli, Monica Carvalho, Gabriela Alves, Edwin Luisi, Karina Barum, Claudio Cavalcanti, Nico Puig, Pietro Mario Bogianchini, Tadeu di Pietro, Claudia Mauro, Raul Gazolla, Álamo Facó, Maria Ceiça de Paula, Jacques Lagoa, Karina Buhr, Zagati e João Signorelli. Essas entrevistas serão publicadas duas vezes por mês.
 
O blog é uma porta aberta a todos.
 
Nos reencontramos em 2013!
 
Um abraço,
Rafael Spaca.

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica

Em dezembro de 1990 Lucchetti deu uma entrevista para o Ivan Cardoso, para a revista ‘Interview’. Uma parte foi publicada no número 136, abril de 1991. A seguir, o que não foi publicado acrescido de outras mais ao longo desde então.
Sherlock Holmes é o maior detetive de todos os tempos?
Há alguma dúvida quanto a isso? Basta-nos subir as escadas de Baker Street nº 221-B, para libertar-nos de todas as preocupações pessoais, e entrarmos num mundo de névoa flutuante onde passam velhos cabs londrinos, rodando em silenciosas rodas de borracha, o mundo em que Sherlock Holmes realiza os seus prodígios de raciocínio dedutivo, enquanto nós (e o fiel, e inefável dr. Watson) o seguimos num misto de afeto e assombro.
Qual a melhor aventura de Sherlock Holmes?
“Quando um médico escolhe mal, é o pior dos criminosos. Tem coragem e conhecimento.”. Este é o comentário que Sherlock Holmes faz ao seu amigo, dr. Watson, fazendo alusão ao dr. Grimesby Roylott, o sinistro habitante de Stoke Manor. Refiro-me ao conto “A Aventura da Faixa Pintalgada”. Ao que acrescento: dos maiores mistérios decifrados pelo genial detetive; não nos recordamos de nenhum outro que nos mantivesse em expectativa e suspense, culminando com um fim surpreendente e aterrador. Este era também um dos contos favoritos do seu criador: Sir Arthur Conan Doyle.
Vários atores interpretaram no cinema Sherlock Holmes e o Dr. Watson. Na sua opinião qual o melhor?
Eu já ouvira do meu pai tantas referências a Sherlock Holmes que passei a conhecê-lo nas suas minúcias, sem querer ter lido nada dele e como não poderia deixar de acontecer foi se criando em torno desse nome uma mítica que aguçava minha curiosidade. Mas eis, que, de repente, eu o conheço quase simultaneamente através da retratação do sr. Watson, nos textos, e na encarnação de Basil Rathbone nos filmes. E desde então não pude deixar de associar a imagem desse ator á figura do imortal detetive, como também de Nigel Bruce a do seu simplório biógrafo. Ambos são os próprios. Lamento que Conan Doyle não os tenha conhecido.
Você se preocupa em transmitir alguma mensagem nos roteiros que escreve?
Abomino esse tipo de cinema que quer mostrar o retrato psicológico da sociedade; o relatório sobre a vida. Isso para mim é documentário da realidade e como tal, muito maçante. Recordo-me sempre do conselho que o Samuel Goldquin deu a um jovem aspirante a roteirista: “Filho, se tiver que dar alguma mensagem, utilize o telefone.”. E hoje temos muitos outros meios como o fax e o e-mail. Para mim, cinema é diversão, máquina de sonho. Nos filmes que escrevo procuro dar ao espectador alguns momentos de fuga dos seus problemas cotidianos. Vivemos num mundo horroroso onde impera a intolerância e a ganância pelos bens materiais, esquecendo-se que na verdade, ninguém é dono de nada.
Você diz que “vivemos num mundo horroroso”. A que atribui isso?
Desde que há registro na História, o homem sempre brigou com seus semelhantes pelos mais torpes motivos e, na falta de um, rotulam-no de “guerra santa”, chegando ao absurdo de matar em nome de Deus. E quando não está guerreando, sua ganância desmedida levam-no a destruir seu próprio meio ambiente. Estou convicto de que nos encontramos no Cosmo num planeta de expiação. Uns pagam resignadamente e partem para uma outra morada. Outros, simplesmente aumentam seu débito e continuam neste campo de concentração até se conscientizarem de que devem amealhar tesouros dentro de si mesmo e não os terrenos que na verdade não lhes pertencem. Até mesmo o invólucro que abriga nossa alma nos é emprestado e um dia será devolvido á terra.
O que quer dizer que “partem para uma outra morada”?
O próprio Jesus se refere a ela em João,  14,2: “Na casa de meu pai há muitas moradas.”
Você demonstra ter uma sedução muito grande pela Inglaterra. Por que?
Por muitas razões que não dariam para ser enumeradas aqui. Citando algumas: na Inglaterra as propriedades têm mais prioridades que as pessoas. O Canal da Mancha para eles não separa a Inglaterra do resto do mundo. Separa o resto do mundo da Inglaterra, porém, como estávamos falando de Sherlock Holmes, sabia que o local de sua residência (221-B, Baker Street) figura no mapa oficial de Londres, e existem placas na rua indicando-o? Em memorável  artigo na revista ‘O Cruzeiro’, David Nasser diz que, “os vizinhos de Baker Street, os homens, as mulheres, toda a agente do mesmo quarteirão de Sherlock Holmes, referem-se a ele como a um velho do bairro. Existem mesmo, os que ainda se lembram de seu vulto ligeiro, semblante de águia, olhos penetrantes, maneiras bizarras, de erstalker, boné trespassado e cachimbo pendente, caminhando por Marylebone Road, em noites de inverno, de chuva e nevoeiro, rumo ao desconhecido, velando em silêncio, pela cidade adormecida. “Um povo assim só tem que ser mesmo admirado. Eles cultuam suas tradições. E Sherlock Holmes, magnetiza ainda não apenas a compenetrada Inglaterra, porém o resto do mundo.
Por que essa sua fixação pela Inglaterra? Há algum espirito encarnado de um inglês em você? Você sente isso?
 Fizemos, o Marco Aurélio e eu, amizade com o Guido Baccelli. Ele é santeiro que se instalou aqui em Jardinopólis mais ou menos na mesma época em que nos mudamos para cá. Trata-se de uma pessoa culta; e temos conversado sobre os mais variados assuntos, desde cinema até as dinastias dos faraós. Ele tem uma penalidade forte, e encanta-nos pela sua modéstia e facilidade de expor seus pensamentos. É místico, católico apostólico romano e médium. Raramente entramos no terreno pessoal porque percebemos que ele não gosta de falar de si mesmo. Respeitamos essa sua atitude. Mas o que eu queria falar sobre o Guido, está relacionado com essa pergunta que você me faz.
O Guido incorporava o espirito do sr. Pedro. ADORAVAMOS CONVERSAR COM O SR. Pedro que nos esclareceu muita coisa relacionada com o mundo espiritual.  Essas conversas tinham lugar no pátio da nossa casa, junto á cozinha.
Numa dessas conversas, referindo-se ao meu medo de água, o sr. Pedro disse que ele tinha origem na minha última encarnação. Eu era grumete num navio pirata inglês (essa é igualmente a razão da minha fixação por aventuras de piratas) e que havia morrido num naufrágio junto á Gilbratar. Disse ainda que o meu capitão chamava-se Baltazar. Uma coincidência extraordinária com o nome do meu avô, a quem eu tratava carinhosamente de nonno. Ele foi a pessoa a mais importante da minha vida, e de quem eu sinto muita saudade. Seu nome era Baldassarre, mas muitos chamava-o de “Baltazar”. E o tipo físico do meu nonno correspondia á descrição que o sr. Pedro fez do meu capitão e também aquela descrita pelo Guido. Isso dá muito o que pensar. Você não acha?
Como você define a humanidade?
Em duas categorias distintas: os que abrem caminho e os que simplesmente caminham.
O que é a vida para você?
A vida é insipida, a realidade, triste. A biografia de cada um cabe numa caixa de fósforos. Para mim escrever é lidar com o irreal. Eu tenho que transferir as sensações que gostaria de viver, para as minhas histórias. O dia-a-dia de todo o mundo é essa coisa anormal e sempre quis fugir da rotina, por isso projeto-me nos meus personagens. Quando o homem chega ao final, vê o vazio de sua existência e, perplexo, dificilmente poderá afirmar que viveu.
Você é reencarnacionista?
Se não houvesse a reencarnação como explicar as tendências de cada um? Se a natureza é sábia e faz todas as coisas exatamente iguais: uma rosa é sempre uma rosa, como um rouxinol é sempre um rouxinol e uma laranja é sempre uma laranja, então, como explicar as diferenças entre um ser e outro? O que faz uma pessoa nascer músico, pintor ou escritor? E outros, desde tenra idade já demonstrar inclinação para a medicina, matemática, mecânica ou a astrofísica? Você acha que Albert Einstein em apenas trinta e quatro anos de existência teria capacidade para criar a Teoria da Relatividade? E o que dizer de Mozart que, aos seis anos já dava concertos nas cidades de Munique, Viena, Paris e Londres? Citei apenas dois exemplos excepcionais de iluminados, mas se você prestar atenção ao nosso redor, verá que existe uma infinidade de exemplos. Sem a reencarnação nossa existência não teria sentido e Deus seria injusto e a nossa vida uma piada sem graça.
O que você chama de iluminado?
Beethoven, Wagner, Platão, Sócrates, Mme.Crurie, León Dinis, Da Vinci, Fleming, todos são espíritos iluminados que transitaram pela terra para trazer um pouco de beleza, encantamento, conhecimento ou amenizar sofrimentos. Eles pertencem a uma outra morada.
Como você define o Cosmo?
Um mistério dentro de uma charada dentro de um enigma. Aqui cabe citar Edgar Allan Poe: “Se não podemos compreender Deus nas suas obras visíveis, como poderíamos compreendê-lo nos seus pensamentos inconcebíveis?”
Sendo um autor voltado quase que exclusivamente a temas sobrenaturais, você já presenciou algum fato inexplicável?
Como leitor e autor de temas fantásticos eu estaria predisposto a presenciar acontecimentos sobrenaturais. Mas, na verdade nunca vi nada que não tivesse uma explicação racional. O fantástico e o sobrenatural estão apenas na minha mente. No entanto ocorreram alguns estranhos acontecimentos numa casa em que morei no Rio.
Você se refere a casa da Ilha do Governador?
Essa mesma, que você a denominou de mansão hitchcokiana, ela foi palco de alguns acontecimentos estranhos: ruídos, pancadas... Mas houve um fato intrigante que envolveram as três fitas K-7 que o Ivan me entregou com as entrevistas com os atores de “O Segredo da Múmia’ para que eu as copiassem. Certa noite, quando a Tereza e eu assistíamos TV, ela pensou ver o Marco Aurélio, nosso filho, entrar na sala de visitas, uma sala reservada, onde estava o aparelho de som e ao lado dele, eu havia deixado as três fitas K-7. A Tereza ficou intrigada, uma vez que ele não ascendeu a luz. Pouco depois, viu-o sair segurando, com uma das mãos, alguma coisa á altura do peito, atravessar a sala como se dirigisse para a porta da sala que ela não podia ver de onde estava sentada. A Tereza estranhou esse procedimento do Marco Aurélio e comentou comigo. Mas onde eu me achava sentado, podia ver nosso filho sentado junto á mesa da copa. Nessa casa, haviam três salas conjugadas, uma era a de jantar que ficava no centro.
Dela saíam duas portas ao fundo, a da direita pertencia á sala de visitas e ao outra a da copa. E uma terceira lateral que era a entrada social. Uma grande abertura em forma de arco, a comunicava com a sala de TV, na verdade um grande hall com acesso a um lavabo, ao meu escritório e um corredor com as portas dos quartos. Eu falei que não podia ser o Marco Aurélio, porque estivera o tempo todo na copa. “Então entrou alguém aqui!”, exclamou assustada. Vistoriamos a sala de visita, a de janta; abrimos a porta de entrada com acesso para um patamar externo de onde se seguia um lance de escadas até o portão da rua. Tudo estava calmo, não constatamos nada de anormal, embora a Tereza continuasse a afirmar que alguém, havia entrado na sala de visitas e de lá saído carregando alguma coisa. A confirmação teríamos alguns dias mais tarde, quando fui em busca das fitas a fim de ouvi-las, não as encontrei no lugar onde eu as havia deixado. Perguntei ao meu filho, á Tereza, ninguém sabia de nada. Como não tínhamos empregada e a sala era um lugar reservado, não havia razão de elas terem sumido. Reviramos toda a sala, não ficou um só recanto sem ser vistoriado. Tiramos as almofadas dos sofás, desencostamos a discoteca, as mesinhas laterais com quebra-luzes, até sob as tapetes vermelhos olhamos, nenhum vestígio das tais fitas. Fiquei apavorado, como iria falar ao Ivan que as fitas haviam desaparecido! Não falei, na esperança de que elas pudessem aparecer, embora a cada dia essa possibilidade se tornava mais remota.
E a cada dia, voltava á sala e dava outra vistoria, não me conformava: como três fitas K-7 podem desaparecer... No entanto tinha “aquela visão da Tereza: alguém parecido com o nosso filho havia entrado na sala e de lá saído carregando alguma coisa”... seriam as fitas? Talvez, uns vinte dias mais tarde, durante os quais eu dizia ao Ivan estar providenciando a cópia das fitas, após assistirmos a um filme, meu filho e eu preparamos para nos recolher, quando ouvimos, vindo daquela sala, uma pancada, como se alguém houvesse batido com algo plano sobre uma superfície sólida. Fomos até lá, acendemos as luzes e comprovamos que não havia nada de anormal. Passados alguns dias, eu estava naquela sala, colocando um disco no aparelho de som e ao me voltar, minha atenção foi chamada para alguma coisa atrás de um quebra-luz sobre uma das mesinhas laterais, exatamente a que ficava num recanto de difícil acesso. Eram as três fitas K-7! Se alguém limpando a sala, e inadvertidamente apanhasse as fitas de sobre o móvel, ao lado do som, jamais iria coloca-las naquele lugar. Me ocorreu fazer uma experiência: bati as três caixinhas, uma sobre a outra, contra a superfície de mármore da mesinha. Fora exatamente o ruído que meu filho e eu havíamos ouvido. Houve um outro episódio estranho, este presenciado somente pelo Marco Aurélio. Uma tarde, após regressar da faculdade, ele esta sozinho na sala de TV e três peças de bronze: uma faca, um garfo e uma colher que serviam de adorno sobre a mesinha . Um outro acontecimento que me recordo, foi num domingo pela manhã, eu estava encostado no umbral da porta do quarto do meu filho, conversando com a Tereza, enquanto ela arrumava a cama. O assunto era nossa próxima mudança e estávamos em dúvida sobre duas cidades: Petrópolis ou Ribeirão Preto. Recordo-me que no instante em que mencionei Ribeirão Preto, soou uma forte pancada contra uma prateleira no corredor, sobre a qual haviam algumas panelas antigas de ferro, que serviam como adorno. A pancada soou sobre ela, as panelas chegaram a saltar sobre o tampo de madeira. Recebi aquilo como um aviso, uma advertência, uma vez que essa cidade, onde já havia residido, nunca trouxera-me sorte. E mais uma vez, com essa nossa mudança, viria se confirmar. Eu devia ter dado ouvidos àquela advertência... É, na casa da rua Cambaúba havia mesmo um fantasma.
Outro acontecimento singular iria acontecer alguns meses mais tarde, por ocasião da nossa mudança do Rio de Janeiro para Ribeirão Preto, 6 de janeiro de 1982. Saímos do Rio embaixo de temporal, obrigando os carregadores a improvisarem um túnel com encerados para poderem fazer a mudança, principalmente no que se referiam ás caixas contendo livros. Também nossa chegada em Ribeirão Preto foi saudada com chuva e aconteceu as mesmas improvisações com encerados para resguardar móveis e caixas. Mesmo a despeito de todo o cuidado uma das caixas molhou-se e danificou dois livros de H.P.Lovecraft recém adquiridos pelo Marco Aurélio, ficando colados um ao outro: capa e contracapa. Ao descola-los, não conseguimos evitar que ficassem seriamente danificados. Os livros foram deixados sobre uma mesa numa dependência que havia no fundo do quintal secarem naturalmente. Alguns dias mais tarde, o Marco Aurélio foi encontra-los intactos, não demonstravam o menor sinal das rasuras em sua capa e quarta capa, bem como suas páginas sem a deformidade própria do papel seco depois de molhados.  Os dois paperbacks de H.P.Lovecraft estavam exatamente como ele os haviam adquiridos da Livraria Leonardo Da Vinci.
Você é conhecido como uma pessoa excêntrica, contam algumas histórias nesse sentido, como por exemplo, o seu casamento num cemitério. É verdade ou folclore?
Em parte é verdade. Quando estava para me casar fui conversar com o padre na possibilidade do meu casamento ser realizado na capela do cemitério. Não imagina a cara que o padre fez, olhou-me como seu eu havia dito a maior heresia do mundo. Argumentei que achava a coisa mais natural, porque tudo não era igreja? Só que a estranheza do padre – era lógico que eu sabia – se prendia ao fato de querer me casar na capela de um cemitério! Sempre o preconceito contra a morte e os mortos. Porque esse preconceito, se um dia nós também seremos os mortos?  Qual a única verdade que conhecemos tão logo abrimos os olhos para este mundo, por acaso não é a morte? Então porque temer a morte se ela é exatamente a única verdade que nos libertará? Por isso adoraria ter me casado na capelinha do cemitério de Ribeirão Preto, pequena, aconchegante e também uma forma de homenagear meus mortos queridos ali sepultados.
Porém, além do padre eu teria que acatar a opinião da Tereza. Isso não foi necessário ante a negativa do padre. Mas voê imaginou alguém pedir á sua noiva para se casarem numa capela do cemitério? E ainda havia um outro particular, ela deveria estar vestida de negro e vir montada num cavalo branco (sua casa distava uns cinco ou seis quarteirões do cemitério) seguida pelo séquito dos convidados.
Você fez rádio e TV em Ribeirão Preto. Conte como foi isso.
Quando o Aloysio Silva Araújo, um famoso radialista da época, assumiu a direção de broadcasting da PRA 7 Rádio Clube de Ribeirão Preto; em 1956, encomendou-me dois programas, um seriado de aventuras para os fins de tarde e um outro que fugisse completamente dos que, na época, poluíam as ondas sonoras. Faça alguma coisa no gênero que você domina, disse-me ele, uma vez que era leitor da revista ‘X-9’ e gavia lido alguma novela minha.
Foi com certa facilidade que criei ‘O Grande Teatro de Aventuras’ que ia ao ar de segunda a sexta-feira nos finais de tarde e como eu era fanático pela coleção ‘Terramaear’, da Editora Nacional, as aventuras se desenvolviam em terra, no mar e no ar, praticamente uma adaptação para o rádio desses livros. O segundo programa foi ‘Você é o Detetive’, que nada mais era do que a sua transposição para a linguagem radiofônica aquilo que revistas policiais e de quadrinhos acostumavam publicar. Eram pequenas histórias escondendo sempre um culpado, e o leitor era desafiado a encontrar esse culpado (a solução vinha sempre no final, de cabeça para baixo).
Essa ideia seria aproveitada alguns anos mais tarde na TV Tupi Canal 3 de Ribeirão Preto, num programa encomendado pelo Silvério Netto, que era o diretor artístico da PRA 7 por ocasião da apresentação do programa ‘Você é o Detetive’. Para a Tupi da qual o Silvério era diretor, adotei o título ‘Quem Foi?’, que ra o nome de uma revista de história em quadrinhos policiais publicada pela EBAL (Editora Brasil-América), do Rio de Janeiro. Se não cheguei a ter o primeiro programa de radioteatro com a participação do ouvinte pelo telefone, pelo menos tenho certeza de que fui um dos primeiros, se não o primeiro, no Brasil a ter o telespectador participando pelo telefone.
Mas para ‘Quem Foi?’ tive de enfrentar um problema que foi um desafio. A quantidade de cenários no ‘Você é o Detetive’ não havia nenhum obstáculo. Eu poderia ter quantos a história necessitasse; na televisão isso era absolutamente impraticável. Os recursos eram escassos e eu poderia ter no máximo três cenários, na verdade dois porque era um cenário fixo: a sala do delegado. Mas os obstáculos não paravam aí. Eu tinha unicamente uma só câmera e assim mesmo refugo da Tupi de São Paulo. Todas as vezes que havia mudança de cenário, apelava-se para o padrão do programa que ficava no ar. Também havia o recurso da propaganda do patrocinador. Ela era feita num recanto do estúdio por uma câmera fixa.
Além dos recursos precários, acrescenta-se que ainda não havia o videoteipe e tudo tinha de ser feito ao vivo e exigia muita criatividade. Por exemplo, uma das minhas histórias “pedia” uma janela aberta, através da qual uma pessoa testemunhava um assassinato praticado no prédio da frente. Foi uma ingenuidade minha, reconheço, tal ousadia. “Impraticável!”, disse de pronto o Silvério. “Isso nos custaria uma pequena fortuna!” Lógico, para se filmar teríamos de fazê-lo em 16mm e mandar revelar em São Paulo, para um simples detalhe que iria ao ar em apenas poucos segundos. Mas a solução me ocorreu de imediato. Ao olhar através da janela do escritório do Silvério Netto, vi parte da fachada do Hotel Umuarama, do outro lado da rua – os estúdios da TV ficavam no último andar de um dos mais altos edifícios de Ribeirão Preto. “Por que não usamos um dos apartamentos do hotel?” sugeri.  O Silvério riu, balançou a cabeça. “Como você é ingênuo, Rubens”. Lembro-me bem dessas palavras e da expressão adotada por ele. “Usar um apartamento do hotel... É isso?!...”
Foi fácil convencer o gerente do hotel de usarmos um dos apartamentos vagos e de frente para a rua.
E a história pôde ir ao ar exatamente como estava no meu script: a câmera foi colocada no escritório e serviu para que o personagem presenciasse o assassinato, do outro lado da rua no apartamento do hotel, para onde deslocamos os atores.
Eram coisas assim que fazia o encanto de se trabalhar na TV no longínquo 1961...
Mas você não disse como era o esquema do programa.
Era apresentada a teatralização de uma história, tanto poderia ser um roubo como um assassinato. Quando o detetive Reginaldo Varela, personagem fixo e interpretado sempre pelo mesmo ator, chegava á conclusão de quem era o culpado, entre os suspeitos , o programa era interrompido e entrava no ar o apresentador, imagina você, que era eu... sentado á uma mesa com telefone.
Eu sorteava um telefone, previamente inscrito – o programa era patrocinado pela Douradinha, um refrigerante ribeirão-pretano; e, para se inscrever, o telespectador tinha de remeter três rótulos do produto – e a pergunta que o telespectador tinha de responder era: como foi que o detetive chegara á conclusão do culpado. O telespectador tinha á sua disposição alguma(s) pista(s) para saber quem era o culpado do assassinato ou do roubo. O prêmio era um livro da coleção Sherlock Holmes, das Edições Melhoramentos.
Ainda tem uma curiosidade interessante sobre o ‘Quem Foi?’. Como o programa era ao vivo a propaganda também era ao vivo. Como expliquei que sempre quando houvesse a necessidade da mudança de cenário, o padrão do programa ficava no ar, e quando acontecia de o intervalo ser demasiado longo, aproveitava-se para fazer o comercial do refrigerante patrocinador. Ele era feito por uma garota bonita, exuberante e escassamente vestida, e, ao término, ingeria um pouco de bebida. Ás vezes as histórias pediam várias interrupções; a coitada bebia tanto refrigerante que acabava ficando enjoada.
Interessante. Uma ideia original. Mas não foi esse o único programa que você escreveu para a televisão. Houve outros, não?
Houve. Quando me mudei para São Paulo em 1966, para assumir a função de chefe de escritório de uma loja de ferragens de uns primos da minha mãe, escrevi os programas do Mojica: ‘Além, Muito Além do Além’, na Bandeirantes e ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’, na Tupi, mas aí a história foi outra... muito diferente daquela de Ribeirão Preto que tanto me fascinou.
Sei também que escreveu o libreto para um balé. Fale sobre ele.
Em 1984 fui procurado por uma jovem diretora de uma academia de dança de Ribeirão Preto. Ela estava com um programa: queria fazer um espetáculo do qual participariam todas as alunas que concluíram o curso de dança clássica naquele ano (cerca de quarenta mais ou menos). Tinha até o nome: SHOCK. Para ele já havia criado também uma série de coreografias com arranjos musicais que evocavam temas fantásticos, e não sabia que fazer com elas. Não era seu desejo apresenta-las num único tema. Erra era o problema e por isso estava recorrendo a mim. Estávamos no mês de setembro e o espetáculo deveria se realizar no Teatro Municipal de Ribeirão Preto entre os dias 21, 22 e 13 de novembro (inclusive o teatro já estava reservado e os ingressos sendo vendidos com antecipação). Eu tinha, portanto, pouco tempo. Mas gosto de desafios e trabalhar sob pressão.  Escrevi o libreto em cinco dias, integrando todas as danças num único tema.
Numa temporada noite, o castelo do conde Drácula, erguido nos Montes Carpátos, Transilvânia, está engalanado para a sua volta. Vlad, o fiel guardião do castelo, organiza a homenagem reunindo todos os súditos do Reino do Mal. Sentindo-se ameaçada , sua arqui-inimiga, a Bruxa Évora, enfeitiça Vlad e coloca uma poção mágica no vinho que será servido aos convidados no amplo salão do castelo. Ao soar as doze badaladas da meia-noite, é servido o vinho para o brinde, em regozijo á volta do grande Mestre e Senhor do Reino do Mal. Uma vez ingerido, o vinho começa a provocar uma estranha metamorfose entre os presentes que passam a recepcionar o conde Drácula com uma orgia de danças fantásticas. Até que chega o momento aguardado pela Bruxa Évora que aproveitando-se da dança das máscaras, confunde-se entre os presentes e destrói o conde Drácula, transpassando-lhe o coração com uma estaca, a única maneira de matar um vampiro. Dando gargalhadas histéricas, Évora desaparece em meio a uma explosão, enquanto os presentes assistem pesarosos a agonia de seu mestre e senhor. Somente Vlad tem o poder de ressuscitá-lo, uma vez que não é um dos “não-mortos”, portanto não pertence á legião dos súditos do Reino do Mal, detalhe desconhecido da Bruxa Évora. Vlad arranca a estaca do peito de Drácula que retorna á vida ante o regozijo dos seus vassalos.
 Já vi muitas definições a seu respeito, uma delas que é um autor essencialmente de short-story mystery magazine. Isso não o incomoda, sendo brasileiro, dedicando-se a um gênero não cultivado entre nós?
A principio esse conceito me chocou. Hoje já nem tanto. Essa foi a forma de dizer as coisas, de escrever aquilo que tinha a dizer. A imaginação não conhece limitações e nem fronteiras. Sou um ator de ficção, livre e descompromissado.  Cada um busca seus próprios caminhos. Os textos de um modo geral ficam, os críticos passam. Por isso dou uma banana para ao críticos e prossigo minha caminhada.
Mas porque não no Brasil?
Gosto de trabalhar com histórias enigmáticas, cheias de humor negro e a investigação partindo de pequenos e aparentemente insignificantes detalhes. Tudo isso seria falso no Brasil, onde as torturas e os espancamentos nas delegacias é coisa comum e do conhecimento das autoridades que fazem vista grossa a respeito e desrespeito aos direitos da pessoa humana, o que torna impossível o desenvolvimento de histórias desse gênero entre nós. Nas histórias de detetive & mistério o que vale não é a brutalidade dos órgãos repressivos, mas o jogo de inteligência entre o criminoso, que quer esconder o seu delito para não ser punido, e o detetive, que, em defesa da sociedade, quer prender o criminoso.
Independentemente das razões enumeradas quero citar o próprio Edgar Allan Poe, um norte-americano, ao escrever a trilogia que inaugurou a novela de detetive & mistério, ‘Os Crimes da Rua Morque’, ‘O Mistério de Marie Roget’ e ‘A Carta Furtada’, ambientou-as em Paris e o personagem principal delas é também um francês, o detetive C. Auguste Dupin. Vários dos contos de horror de Poe não se passam, necessariamente, nos Estados Unidos, mas na Alemanha, Espanha, Grécia, Itália...
Como foi sua iniciação literária? Havia muitos livros em sua casa?
Havia apenas uma velha Bíblia, com a qual minha mãe me alfabetizou. Grande parte dos autores da literatura universal, tomei conhecimento através das revistas que eu colecionava. Por isso, muito antes de chegar aos seus livros, já me eram familiares: Guy de Maupassant, O.Henry, Oscar Wilde, Honoré de Balzac, Alphonse Daudet, Rudyard Kipling, Aldous Husley, Mark Twain, entre outros eminentes nomes da literatura e do pensamento universal. Isto através da leitura de ‘Vamos Ler”!, ‘A Cigarra Magazine’, ‘Eu Sei Tudo’, ‘Carioca’, ‘Revista da Semana’ e também nas revistas pulps: ‘Aventura e Mistério’, ‘Policial em Revista’, ‘X-9’, entre muitas outras.
Porém, as traduções estavam longe de serem um primor, mas perfeitamente ao alcance do leitor adolescente ainda com uma baixa escolaridade. Recordo-me de haver lido na ‘Lupin’, em forma de folhetim, ‘Dois Vivos e um Morto’, do escritor norueguês, Sigurd Christiansen. Esse romance impressionou-me e quando ele caiu-me nas mãos, numa edição do Clube do Livro a impressão que havia tido por ocasião de sua primeira leitura, foi ainda maior, devido á primorosa tradução de A.Luquet. Porém, resta-nos lamentar a lacuna deixada por essas revistas populares nas bancas de jornais; uma vez que o leitor com pouco poder aquisitivo não conta com as mesmas possibilidades que tiveram os leitores do passado. Hoje o estímulo á leitura é praticamente nenhum, basta visitarmos uma livraria para constatarmos o preço proibitivo do livro. As baixas tiragens, o tornam, não um artigo de primeira necessidade, como seria o de se esperar, mas um artigo de luxo. O livro deveria ser um produto subvencionado por verbas governamentais. Mas isso no Brasil é uma utopia, como também não deixa de ser uma utopia o sonho de um dia podermos ter um governo voltado aos reais problemas da população. Não creio nos políticos.
Não escrevo romances.  Escrevo simples novelas de suspense. Sem necessidade de me aprofundar nas psicologias dos personagens. Os personagens são mais ou menos superficiais, apenas os maus que ás vezes tenho necessidade de me aprofundar mais, dando-lhes psicologias para poder justificar a razão dos seus atos.
Nunca escrevi nada sobre a região em que vivo. Somente agora estou reescrevendo velhas histórias publicadas nos magazines policiais dos anos 40, 50 e 60 e estou ambientando-as em São Paulo. São Paulo é o meu lar, conheço a cidade como a palma da minha mão e é natural que registre a cidade nas minhas histórias. Elas estão sendo ambientadas no inicio dos anos 40. No tempo dos bondes, da Avenida São João, rua da Conceição (hoje Cásper Líbero), ruas General Osório, Duque de Caxias, Conselheiro Nébias, Aurora... Eu trabalhava numa loja de autopeças de uns parentes da minha mãe. Fazia entregas, cobranças e despachos na Estação da Luz. Cortava o centro de canto a canto. Estou passando todas essas minhas reminiscências nos meus textos, tendo como fio condutor, o detetive Reginaldo Varela e seu chefe, o Inspetor Flora.
Mas sempre me sinto bem escrevendo sobre regiões que não conheço. Os detalhes são retirados de filmes que assisto com muita atenção, principalmente quando ambientados em Nova York, Londres ou Paris. Vou anotando todos os pormenores, até mesmo o de um semáforo num cruzamento de ruas ou uma rua onde está situado um hotel. Me sinto bem fora do meu ambiente. Se estou somente agora escrevendo histórias passadas em São Paulo é porque a época já está bastante distante e tudo me parece um filme.
Você revisa o que escreve?
Dou uma lida rápida e como escrevo á máquina, colo por cima as rasuras porque sou um péssimo datilografo. Escrevo penas com dois dedos. Mas não gosto de revisar, porque sou obrigado a ler o que escrevi. E depois de escrito, um conto, uma novela, raramente me interesso por eles. Nunca me dá prazer ler o que escrevi. E até chego a me admirar em saber que alguém perde tempo lendo meus textos. Por isso que dou graças a Deus porque a maioria desses textos estarem assinados com outros nomes.
Poucos são os textos que estão assinados por mim. Como me achavam um estranho invadindo seara alheia; publicavam minhas histórias com pseudônimos, quase sempre escolhidos pelos próprios editores. Não acreditavam que um nome latino pudesse chamar a atenção dos leitores, acostumados que estavam com as narrativas do gênero, sempre assinadas com nomes anglo-saxões.
Mas isso não o incomoda? Afinal não era você que aparecia como autor.
Não. Na verdade nunca me incomodou, porque embora não estivesse ali o meu nome “eu sabia” que era eu. E isso para mim era o que bastava. Orgulhava-me de estar ao lado dos mestres do gênero: DOROTHY Sayers, Conan Doyle, Agatha Christie...
Também os heterônimos foram  uma constante nos meus textos e grande parte de meus pocket-books estão assinados por eles e cada um com sua própria personalidade, biografia, “foto” ou bico-de-pena retratando-os.
Uma contingência de quem “escreve para fora”: certa vez o editor de uma grande revista mandou pedir-me uma história. “De terror” – sublinhou, piscando o olho, o emissário. Eu estava, na ocasião, cheio de serviço. Queria tempo. E perguntei: “Para quando?”. Imaginei que me dariam um prazo de 15 dias, 20, um mês. O outro olhou para o relógio de pulso, pensou, fez cálculo e disse: “Seis horas.”. Repeti esbugalhado: “Seis horas?!”
E, no entanto, ou melhor dizendo, o meu horror não tinha motivo. O prazo fulminante é uma contingência literária do subdesenvolvido. E por isso eu costumo dizer para mim mesmo: “Muito dura é a nossa profissão de escrever para fora” Um estilista vai da primeira estrela da tarde á última da noite, para escrever duas linhas. Depois de redigi-las, acorda toda a família aos gritos:
-- Fiz duas linhas! Duas Linhas!
Complementando o meu raciocínio, li certa vez o que disse Isaac Asimov: “Ou você é um escritor perfeccionista ou é um escritor prolifico, mas não ambas as coisas. Leva tempo para polir as pequenas dificuldades e eu não tenho esse tempo. Estou sempre ansioso pelo projeto seguinte.”.
E os pseudônimos, os heterônimos? Sei que teve muitos.
Eu usava unicamente para assinar textos místicos como Shiwan Khan, para assinar sobre magia e mágicas e que na verdade é o nome do arqui-inimigo do Sombra. Haviam também os pseudônimos coletivos, que a Editora Cedibra usava para assinar os pocket-books, estes prefiro não citar, a não ser o Eric Von Zagreb que eu dividia com o meu amigo Perez Baçan. Essa editora, na qual também trabalhei, não tinha nenhum respeito pelos seus autores. Esses “pseudônimos coletivos” a que me referi , eram “marcas registradas” de propriedade exclusiva da editora. O que significa que os textos assinados por eles ficavam de propriedade da editora. Comigo aconteceu assinarem pockets com os nomes: Vincent Lugosi, numa alusão direta a Vincent Price e Bela Lugosi; Brian Stockler, numa derivação de Bram Stoker, o autor de ‘Drácula’. Mas o maior descaramento mesmo ficou por conta de Peter L. Brady para assinar a minha novela “O Exorcista do Demônio” que me foi encomendado a fim de aproveitar o grande sucesso do livro e do filme “O Exorcista” de William Peter Blaty. Nesse mesmo ano de 1974, o José Mojica Marins estava lançando o filme “Exorcismo Negro”, tendo como base um roteiro de minha autoria, mas que não me foi creditado.
Essa profusão de pseudônimos e heterônimos não causavam alguma confusão?
Já pareceram textos meus em antologias na qual sou citado como um autor estrangeiro. Nem se deram ao trabalho de pesquisarem para descobrirem que por trás daquele nome alienígena estava um brasileiro. Houve o caso de uma revista portuguesa publicar um conto meu transcrito do ‘Policial em Revista’. Só que foi inventada uma nota dizendo que “aquele conto fora premiado num concurso em Londres”. Há também um fato curioso: uma história minha apareceu assinada por Loretta Slavaski. Como imaginei tratar-se de mais um pseudônimo criado pelos editores, e por acha-lo bonito e sonoro, cheguei até repeti-lo num outro conto. Mas, mão imagina meu susto, quando, certa vez, ao folhear uma revista deparei com esse nome assinando um conto! Levei cerca de trinta anos para descobrir que Loretta Slavaski não era um pseudônimo que me pertencia e sim o nome verdadeiro de uma escritora que realmente existia. Também já aconteceu o inverso: estar o meu verdadeiro nome assinando textos que não eram meus. Infelizmente, é como eu disse anteriormente, esse gênero de publicação era feita sem nenhum cuidado editorial; foi exatamente por esse motivo que esses erros ocorreram e não por eu estar usando mais de um pseudônimo.
P.S. – depois de ter dado esta entrevista ao Ivan Cardoso, descobri que o meu conto ‘O Crime da Vitrola’ (posteriormente reescrito com o título de ‘Ventou Aquela Noite’, e não republicado) publicado na revista ‘X-9’ com o nome de Helen Reilly, não se tratava de um novo pseudônimo, como imaginava – uma vez, que, na maioria das vezes eram dados pelos editores ou secretários de redação --, trata-se de uma escritora norte-americana. Imagino que o texto de Helen Reilly deva ter saído com um outro nome, porque não me lembro de havê-lo visto citado a não ser recentemente, ao ler uma resenha de livros e ver seu nome mencionado como autora de um livro “policial”. Agora, fico imaginando quantos nomes devem ter saídos trocados nas revistas pulps.
E como é que fica a sua cabeça vivendo tantas personalidades. Na verdade cada “autor” passar a ser um desdobramento da sua personalidade.
Como você mesmo diz: sou obrigado a me desdobrar em várias personalidades e isso agora, igualmente uma tremenda confusão no meu espirito, uma vez que cada personalidade tem atitudes e pensamentos próprios. Dos quais, muitas vezes não compartilho. Por exemplo, a “autora” Medora Field é uma burguesa direitista! Duas coisas que nada tem a ver comigo.
E sua mulher, o que pensa convivendo com uma pessoa com tantas personalidades diferentes? Ela não fica baratinada, sem saber com quem está lidando?
Isso depende do trabalho que estarei escrevendo.
Mas como é que fica a cabeça dela com toda essa confusão?
Talvez ela até se divirta com isso. A Tereza está casada comigo há quarenta e três anos e deve me conhecer bem.
Será?
Vou perguntar a ela.
E os femininos? Sei que usou também nomes femininos.
Os femininos, em sua maioria foram para assinar novelas de horror e góticos. Segundo os editores, eles têm um certo fascínio sobre os leitores. Talvez essa tradição tenha se iniciado no século dezoito com Clara Reeve, autora de “O Velho Barão Inglês”; com Ann Radcliff, cujos romances fizeram do horror e do suspense uma voga e Mary W. Shelley, com o imortal “Frankenstein”.
E os pseudônimos?
Repetiu-se com os pseudônimos femininos o mesmo que aconteceu com os masculinos. A Cedibra era uma editora sem um mínimo de escrúpulo. O meu pasticho sobre Frankenstein apareceu assinado por Mary Shelby e algumas novelas policiais, por Isadora Highsmith, numa alusão despudorada a Patricia Highsmith, autora inglesa, na minha opinião muito superiora á Agatha Christie. Esse tipo de liberdade era tomada á minha revelia, o que me obrigou a deixar de escrever para essa editora, embora o que eu ganhava com esses freelancers, ajudavam muito no meu orçamento doméstico. Mas nunca deixei de escrever. O ato de escrever para mim é uma necessidade fisiológica. É um exercício que pratico sempre, publicando ou não.
Por várias vezes você tem se referido a revistas pulps. O que vem a ser pulp?
Sua origem remonta ás Dime Novels e nos folhetins. Eram revistas impressas em papel produzido com a polpa das árvores, daí a origem da denominação pulp. As histórias publicadas nesses magazines populares possuíam uma característica muito peculiar que tem em Raymond Chandler sua melhor definição: “nem sempre o enredo era o mais importante e sim, as cenas neles descritas.” Realmente, ainda guardo muito vivas na minha lembrança cenas que li há mais de cinquenta anos. Mas não me recordo quase nada dos seus enredos.
E no Brasil, quais foram as revistas pulps?
Entre nós, elas circularam a partir dos anos trinta. Tivemos muitas, porém as mais conhecidas foram: ‘Detective’, ‘Lupin’, ‘Mistérios’,  ‘Suplemento Policial’, que mais tarde se transformaria na ‘Policial em Revista’, ‘Contos Magazine’ e ‘X-9’. A que mais durou foi a ‘X-9’, de 1941 a 1970. E elas também possuíam uma plêiade de autores bem característicos: Maxwell Grant, Norman A. Daniels, George Bruce, para citar apenas alguns. Mas, muitos escritores começaram publicando nas pulps, como é o caso de Edgar Rice, Paul Gallico, Louis Lamour, são os que me ocorrem no momento. Elas também possuíam uma extensa e memorável galeria de heróis: ‘O Aranha’, ‘Detetive Fantasma’, ‘Doc Savage’, ‘Morcego Negro’ que deveria dar origem ao Batman. E, na minha concepção, o maior de todos: ‘O Sombra’. Eles povoaram meu universo juntamente com os seriados de rádio, cinema e as histórias em quadrinhos.
E nos quadrinhos, quais os seus heróis preferidos?
Brucutú, Agente Secreto X-9, Dick Tracy, Brenda Starr Repórter, O Sombra (com exceção de quando ele ficava invisível), Tim e Tom, Dan Dun, Bronco Piller, Jim Gordon, Capitão César, e algumas histórias do Fantasma.
Você não citou nenhum super-herói.
Nunca gostei de super-heróis. A palavra “super” já me soa antipática. Nessas histórias eu ficava penalizado com quem se opunha a eles. Nelas, geralmente, os vilões eram uns pobres diabos.
Dê uma definição de Literatura Policial.
O que entre nós se denomina de Literatura Policial, prefiro chama-la de Detetive & Mistério, por que a denominação de policial se subentende, histórias sobre a polícia* e a sustentação do gênero está na figura do detetive amador cujas bases foram criadas por Edgar Allan Poe a partir de 1841 com sua trilogia ‘Os Crimes da Rua Morgue’, ‘O Mistério de Marie Roget’ e ‘A Carta Furtada’ na qual ele criou o detetive particular C. Auguste Dupin, modelo de todos os outros. Não é muito fácil dar uma definição do gênero; mas pode-se dizer que ele se desdobra na procura do esclarecimento de um mistério, quase sempre um crime. O conto e a novela detetive & mistério não investigam ou fixam o drama moral do crime, mas o drama do seu desenvolvimento, de sua punição, de sua descoberta. Daí o conto e a novela detetive & mistério serem tanto mais bem realizados, quanto mais intricados problemas oferece ás suas soluções. O crime perfeito é o grande momento do gênero e, pode-se dizer, o seu virtuosismo que é um exemplo extraordinário o livro ‘O Caso dos 10 Negrinhos’, de Agatha Christie que foi filmado por René Clair e exibido no Brasil com o título de ‘O Vingador Invisível’.
Concluindo: a literatura de Detetive & Mistério têm suas normas; procurar fazer “melhor” do que elas pedem, significa “pior” e quem procura “embelezá-la”, faz “literatura”, não romance de detetive & mistério.
*Esse gênero denomina-se ‘Police Procedural’.
Você lê o que escrevem a seu respeito?
Sim. E guardo também. Tanto os que falam bem como os que falam mal. Mas nem um e nem o outro me influencia ou me envaidece. Escrevo porque tenho necessidade de dizer as minhas verdades e imagino os que falam bem porque gostam de mim e os que falam mal porque não gostam. Logo, não dou a mínima nem para um e nem para o outro. Na verdade, é tudo inútil. Daqui a cem anos nada disto existirá, o que acho uma maravilha. Porém, o Sol, a Lua e a Terra, e as estrelas estarão exatamente como as vemos hoje.
Você evoluiu na sua maneira de escrever?
Acho que a gente evolui em tudo quando se faz. Apenas o fritar um ovo, fazer uma omelete requer prática. Meus livros com o meu nome são um desastre. Já com nomes estrangeiros vendem muito. Sei de alguns que me teriam enriquecido se os direitos fossem meus.
E não são?
Não. Porque esse tipo de livro escrito sob encomenda, os direitos são cedidos totalmente.
Para encerrar. Me dê dois exemplos: um de mistério e outro de terror.
Quer uma história de maior suspense e mistério do que a nossa própria existência? Não estamos, por acaso, como aqueles personagens ilhados numa grande mansão, aguardando quem será a próxima vítima do misterioso “assassino da foice”?
A mulher, prestes a dar a luz, ao invés de entrar num hospital, enganou-se e entrou num manicômio. Os loucos amarram-na á uma cadeira e transpassam seu ventre com uma espada... no mesmo instante ouviu-se o grito do feto.

Mayara Magri

A atriz participou de diversas telenovelas como ‘Amor com Amor se Paga’; ‘O Salvador da Pátria’ e; ‘A Escrava Isaura’.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Primeiro o roteiro, depois a vontade do diretor, no curta-metragem ‘Sonho de Valsa’ foi assim.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Também não entendo. Tem muito curta-metragem realmente bom.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Não sei, antes era obrigatório passar um curta antes de cada longa, acho que isso podia voltar, mas sem a obrigatoriedade, talvez através de festivais.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
É, eu acho que no longa-metragem, o diretor tem mais possibilidades, com relação ao tempo de filme e de exibição. Às vezes o curta fica tão bom, mas não é possível usar todas as cenas, o filme ‘Átimo’ que eu fiz, virou média-metragem.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Talvez com os mais velhos, mas os jovens, principalmente os que acabam de sair da faculdade, isso não aconteceu.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Penso, já tenho o roteiro que fiz junto com o Beto Bessant, estamos tentando captar os recursos.

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


SANGUE DE PANTERA
Rubens Francisco Lucchetti


Val Lewton é a essência do Horror no Cinema. Recordando-me de seus filmes, não encontro paralelo na História do Cinema. Outros produtores, como Roger Corman e William Castle, tentaram imitá-lo, mas não conseguiram. Cada vez me convenço mais de que ele é o Edgar Allan Poe do Cinema, pois foi quem melhor soube retratar o medo – segundo o roteirista DeWitt Bodeen, as “histórias que ele levou à tela são dramatizações da psicologia do medo” – nas telas cinematográficas.
Toda a obra de Val Lewton – uma obra pequena, diga-se de passagem, já que ele produziu apenas onze filmes – marcou minha vida. Porém, foi Sangue de Pantera (Cat People), realizado em 1942, que me provocou o primeiro espanto. E isso aconteceu por volta de 1948, quando vi a fita pela primeira vez, num cinema de Ribeirão Preto, e percebi o quanto eram banais os filmes de Horror a que havia assistido até então.
Seguindo o exemplo de outras fitas de Val Lewton, em Sangue de Pantera o horror é muito mais sugerido do que mostrado. Na verdade, Val Lewton sempre evitou mostrar claramente o horror e o terror: preferia obter a expressão cinematográfica do horror e do terror por meio da sugestão.
Roteirizado por DeWitt Bodeen e fotografado por Nicholas Musuraca, Sangue de Pantera conta a história da desenhista de moda Irena Dubrovna (Simone Simon), descendente de uma antiga raça de mulheres-felinas que, quando excitadas, se transformam em panteras. E o filme tem inúmeras seqüências dignas de figurar na mais rigorosa antologia do Horror no Cinema – ou do Cinema em geral. Há, porém, uma que merece ser destacada: a da piscina, com os ecos dos gritos de Alice (Jane Randolph) se confundindo com os urros de uma fera, que jamais é vista e cuja sombra, deslizando indistintamente na água agitada pela vítima em pânico, pode tanto ser a sombra de uma pantera como a de uma mulher. A seqüência é de uma simplicidade espantosa, uma vez que é feita somente por sons e sombras.
E Sangue de Pantera continua tão atual como na época em que foi realizado. Isso porque é uma obra-prima, e toda obra-prima é atemporal.
Ah, sim, já ia me esquecendo! Sangue de Pantera foi dirigido por Jacques Tourneur...
Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos.
Este texto foi publicado originalmente no número 3 de Set Especial Terror e Ficção, em janeiro de 2002.