sábado, 13 de maio de 2017

As HQs dos Trapalhões


Organizado por Rafael Spaca.
Prefácio de Dedé Santana
Textos de Marcus Ramone, Jal, Denison Lemos.
Capa de Bira Dantas e Jânio Garcia.
Depoimentos de 28 profissionais que trabalharam nas HQs dos Trapalhões.

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segunda-feira, 8 de maio de 2017

As HQs dos Trapalhões


Matéria do blog "Caderno da Lua" a respeito do lançamento do livro "As HQs dos Trapalhões" (Editora Estronho): https://cadernodalua.com/2017/05/08/rafael-spaca-lanca-livro-sobre-hqs-dos-trapalhoes-pela-editora-estronho/


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Lançamento As HQs dos Trapalhões


Estão todos convidados!

Os Trapalhões: a série


César Sandoval foi quem criou para a Editora Abril o gibi com os Trapalhões crianças, é dele também a arrojada estratégia de marketing para quarteto, assim como a elaboração das vinhetas de abertura dos filmes. A série é uma parceria da TV Cidade com a Editora Laços. Confiram: https://www.youtube.com/watch?v=cnDX7VDCqmY

Os Trapalhões: Breno Moroni


BRENO MORONI
Ator


Você atuou no filme Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva, sua estreia no cinema com eles (antes já tinha atuado em dezenas de filmes). Como e por quem recebeu o convite para atuar nesse filme? Como foi a experiência?
Olha, eu fui convidado pelo próprio diretor, o José Alvarenga Júnior. Na época, eu fazia bastante cinema. Ele me convidou; e foi uma experiência incrível, porque o José Alvarenga é um dos maiores, melhores e mais experientes e mais práticos diretores cinematográficos do Brasil. O José Alvarenga tem uma coisa que combina muito com Os Trapalhões, que é o talento para o improviso e a rapidez. Eles trabalham muito rápido, filma muito rápido, tanto Os Trapalhões como o Alvarenga. Então, é uma escola de cinema que tem muito da televisão, que é a objetividade.

Que representava, naquele período, atuar em um filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Em relação às bilheterias, eu nunca me preocupei com isso. Porque ganhava cachê. Eu ganhava uma coisa certa; então, não dependia de bilheterias. Mas, de qualquer maneira, o sucesso de bilheteria significava o sucesso de ser reconhecido nas ruas como uma pessoa que trabalhou com Os Trapalhões. Tem sempre alguém aí de meia-idade que vem me dizer: “Na minha infância, eu via muito você nos filmes dos Trapalhões, era muito bom, gostava muito.”
Então, esse sucesso aconteceu, sim; mas não tinha nada a ver com bilheteria no meu caso. Foi uma experiência muito boa. Eles são bastante profissionais. Eu lembro uma vez que teve a estreia de um dos filmes; Os Trapalhões se atrasaram por causa de um voo, e eu tive que substituí-los no palco para uma plateia de milhares de pessoas. Tinham milhares de pessoas lá; e eu tive que ficar improvisando durante muito tempo, por uns quarenta, cinquenta minutos... Não me lembro bem, mas fiquei entretendo o público que esperava Os Trapalhões; e eles não chegavam. E no meu improviso eu usava técnicas de linhas de improvisação deles e fui brincando com o povo e tal; e deu certo, porque a plateia nem percebeu que eles estavam tão atrasados, ficou parecendo até uma introdução da apresentação deles que eles fizeram assim que chegaram.

Nesse filme você tem a oportunidade de trabalhar com não-atores, como Angélica e Luma de Oliveira. Como é para você, com tanta experiência no currículo, contracenar com estrelas populares, mas que não são atrizes?
Em relação à Luma de Oliveira, a gente não teve muito relacionamento, não. Foi mais um trabalho técnico. Não chegamos a papear muito, não. Agora, com a Angélica foi muito bom. Ela era muito nova; e nós começamos a conversar sobre política, tema que as pessoas não conversam com ela; e ela era uma pessoa muito preocupada com o Brasil. Naquela época, ela tinha sido convidada pelo Fernando Henrique Cardoso para ir a Brasília para representar artistas em alguma solenidade; e ela veio conversar comigo, pedir minha opinião se deveria ir ou não. E eu disse a ela que nós, artistas, temos muito mais poder que qualquer político. E, por isso ela, deveria manter a posição dela de não servir de garota-propaganda de nenhum político, porque ela era muito mais poderosa que qualquer político.

No ano seguinte você volta a trabalhar com ele em A Princesa Xuxa e Os Trapalhões. Como surgiu esse convite?
Eu não lembro como surgiu o convite; mas, na época, eu trabalhava tanto com a Xuxa quanto com Os Trapalhões, com o Alvarenga e com o pessoal da Ponto Filmes. Era uma turma que fazia cinema no Rio de Janeiro, e eu participava dessa turma. E foi muito bom, pois eu conhecia a Xuxa há muito tempo, do tempo da TV Manchete, do tempo dos desfiles, participamos de desfiles juntos. A Xuxa sempre me pareceu uma profissional exemplar, uma operária da arte dela, do ofício dela, independente do conteúdo, que às vezes é questionado. Mas ela chega sempre na hora, está sempre pronta, ela arruma suas coisinhas no camarim, as suas maquiagens, coisinhas bobinhas. Ela é educada com todo mundo, nunca vi ela dar um chilique, ela é uma excelente profissional.

Como foi o seu contato com o quarteto?
Era com os quatro sempre na hora das cenas; no intervalo, a gente se dispersava um pouco. O Renato gosta de ficar no camarim quieto, concentrado. Com cada um era uma história. Com o Dedé, eu tinha conversas meio espiritualistas; com o Mussum, era mais umas brincadeiras, umas piadas, ele era uma pessoa muito divertida. O Zacarias falava pouco; por incrível que pareça, era um homem tímido. E o Renato, como eu disse, era mais na dele, ficava concentrado. Pouca conversa à toa, as conversas eram mais profissionais: falávamos de coisas relacionadas às cenas, às ações, aos efeitos, os dublês.

Uma Escola Atrapalhada foi o último filme com a participação de Zacarias, que faleceria naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido, numa cena curta. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
No filme, Uma Escola Atrapalhada, minha filha, Joana Moroni, também participou. Eu não me lembro do Zacarias doente. Eu me lembro dele alegre, brincando, ou seja, sendo o Zacarias. Eu nunca me dei conta de que ele estava tão doente. Talvez eu tenha achado ele mais magro; mas, quando filmávamos com Os Trapalhões, era sempre um ambiente de muita alegria, muita festa, cordialidade, solidariedade. Então, eu acho que essas coisas encobriram. E, naturalmente, ele entrou nessa onda de não se deixar abater, né? É compreensível. A pessoa, quando está num momento triste na vida, a vida no cinema se torna melhor que a vida real.

O personagem de Zacarias, assim como os de Dedé Santana e Mussum, fez apenas uma breve aparição. A sensação é que pareciam figurantes no filme. Isso procede?
Foi pequena, assim como a minha foi muito pequena nesse filme. Mas isso foi numa época em que o cinema usava muitas pessoas, elenco grande, participações pequenas de pessoas bem famosas como éramos considerados na época.

Após esse filme, você trabalhou em mais um filme com Os Trapalhões, O Mistério de Robin Hood, o quarto e último da parceria. Por que foi o último?
Foi muito bom. Eu pude não só realizar meu trabalho de ator, mas também das minhas pesquisas e estudos em relação a dublê, aquelas cenas de carros correndo, de porrada, de luta. Os Trapalhões também me deram essa possibilidade. Eu estudei técnicas de dublê na Inglaterra e acabei virando diretor de dublê. Continuei as pesquisas no Ceará e no Rio de Janeiro e nos filmes dos Trapalhões eu podia aplicar todo o meu conhecimento, todas as acrobacias, truques, dar tiros de efeito, de festim. Então, foi bem importante esse filme para mim.

Qual foi a sua percepção, em relação ao clima durante as filmagens, sem o Zacarias?
Fazia falta, era uma quebra. Porque era um trabalho de quarteto. Não existe ator principal, são todos “escadas” uns dos outros, são todos comediantes. Assim como os trabalhos de dupla de atores como O Gordo e O Magro, assim como os trabalhos de trios como Os Irmãos Marx. É um estilo de representação. E é muito difícil, porque a vaidade, às vezes, acaba com esses grupos maravilhosos, como aconteceu com Os Beatles, por exemplo, que acabou se separando porque, talvez, seus integrante não tenham compreendido a extensão, a importância do trabalho em grupo. E Os Trapalhões tinham isso, porque vieram do circo; e o circo sempre foi o coletivo.

Nesse filme, Roberto Guilherme e Tião Macalé participam. Como foi trabalhar com eles, que ajudaram a construir a história dos Trapalhões?
Com o Roberto Guilherme, fiz pouco trabalho direto. Fizemos algumas coisas na televisão. Na TV Globo eu participei de alguns programas deles também. E o Tião Macalé está entre aqueles grande atores com quem eu tive a honra de trabalhar. Ficaria aqui alguns minutos falando de todos os artistas, de todos os mestres da Comédia com quem eu tive a oportunidade de trabalhar na TV Manchete, naqueles programas de Comédia que eles faziam lá. No cinema e no teatro, trabalhei com muitos. E o Tião Macalé é um patrimônio da cultura popular brasileira.

Quem era o maior comediante do grupo?
Eram os quatro. Mas no backstage, nos intervalos das filmagens, o Mussum, com certeza, era o mais engraçado. Eu tenho muita saudade do Mussum, gostava muito dele. Eu era pai solteiro e levava a minha filha nas filmagens; e quem ficava cuidando da minha filha, durante as filmagens e nos intervalos, era o Mussum. Ele vivia com ela no colo, dava beijinhos, carinho. Ele era uma pessoa fenomenal, muito carinhoso, muito amoroso, humilde, muito aberto. E a lembrança maior que tenho é ele com a minha filha, a Joana Moroni, que hoje tem 33 anos, no colo dele, brincando e ele fazendo caretas pra ela.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Sim, ele acompanha toda a produção. Geralmente, os argumentos são dele. Depois, ele participa do roteiro e acompanha as filmagens, faz reunião de cenografia, de tudo.

Acredita que essa característica de Renato o torna diferente, um profissional de sucesso?
Essa característica do Renato não é o que o torna diferente, torna-o normal. O que acontece, talvez, é que esse acompanhamento, essa vontade de ser perfeccionista, isso deve acompanhar todo e qualquer artista. Se você fica deitado na praia esperando a fama, o sucesso, talvez você até encontre um produtor que te chame para fazer Malhação... ou algo do tipo. Mas artistas do nível dos Trapalhões são artistas de treinamento, que estudaram teatro, circo, música. Então, é fundamental que se pratique, que se estude, que se treine, que se ensaie. Atores do nível dos Trapalhões, do nível do Chaplin, eles têm tudo pronto, são atores prontos, são atores que você joga no meio do palco e eles começam a entreter uma plateia, dominar uma plateia, chamar a atenção, fazer coisas interessantes, fazer coisas que ninguém faz. A origem dos Trapalhões é o circo, que é a mesma origem do Chaplin, do cinema mudo, do teatro físico. Para ser um ator de verdade, profissional, há de se estudar sempre, tem que ser como Os Trapalhões: cantam, dançam, representam, fazem acrobacias, fazem de tudo na arte. Penso que é importante falar sobre o Baiaco e o Napoleão, que são os dublês dos Trapalhões.
Eu tive uma relação muito boa com eles; depois, acompanhei-os na vida de circo deles, conheci a história pessoal de cada um. E eles, como muitos naquela equipe, vinham do circo; e o circo era o que fazia o cinema dos Trapalhões se tornar uma família, era uma solidariedade, diferente da televisão, em que o ator é um indivíduo, um produto único. No circo, as famílias se unem para sobreviverem juntas; e Os Trapalhões tinham esse espírito.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Existe essa resistência por falta de cultura. Acho isso uma ignorância, porque são estilos diferentes. Não se pode comparar com filmes do Cinema Novo. Temos que parabenizar as pessoas que fazem arte no Brasil. Os Trapalhões, durante anos, conseguiram fazer dois filmes por ano. Isso era muito importante para o Brasil. Empregava os técnicos, atores. Criava bilheteria, criava empregos. Agora, o que acontece é que existe um preciosismo no cinema nacional, onde algumas pessoas demoram cinco, dez, ou mais anos para realizar um filme.
Então, quando veem Os Trapalhões fazendo filme com os pés nas costas, isso causa uma certa inveja, um certo ciúmes.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular durante essa produção em que você trabalhou com Os Trapalhões.
É preciso falar da Ponto Filmes, do Cacá Diniz e da Yurika Yamasaki, que eram pessoas fabulosas, que tinham todas essas características boas dos Trapalhões dentro da produção. Eram pessoas de fácil lida, muito simpáticos, solidários. Eu acho que Os Trapalhões tiveram o sucesso que tiveram por conta também desses dois, que são pessoas muito valorosas, muito importantes para o cinema nacional. Os dois merecem uma citação em letras de ouro, porque a Ponto Filmes foi, durante muito tempo, um ponto de resistência do cinema brasileiro no Rio de Janeiro.

Os Trapalhões: Braz Chediak


BRAZ CHEDIAK
Roteirista


Você trabalhou na estreia de Renato Aragão no cinema. Como recebeu o convite para escrever o roteiro de Na Onda do Iê-Iê-Iê?
Eu havia datilografado o roteiro de uma comédia para o diretor Aurélio Teixeira, que se passava na Polícia Militar. Como estávamos vivendo sob a ditadura, o filme foi proibido antes mesmo de ser filmado. Disseram que denegria a imagem da polícia a filha do Coronel se apaixonar por um soldado e – pior ainda – ter um ou dois soldados trapalhões era inadmissível.
Como havia sido convidado para trabalhar como assistente de direção, fui à noite à casa do Aurélio, sem saber do fato. Cheguei lá e encontrei todo mundo triste, o Aurélio, o produtor Jarbas Barbosa, a atriz Gracinda Freire, mulher do Aurélio. Enfim, todo mundo estava tenso, chateado. Contaram, então, da proibição. E levei um susto. Eu estava sem dinheiro e precisava de um trabalho urgente. E, na minha ingenuidade de um quase menino do interior, perguntei por que não escreviam outro roteiro. O Aurélio me olhou com cara feia, perguntando: “Você acha que é fácil, garoto?
Respondi: “Acho que não é difícil.”
O Aurélio já ia me xingar, quando a Gracinda falou: “Deixa o menino tentar, Zé!” Na intimidade, ela chamava o Aurélio de Zé e o Jarbas Barbosa o chamava de Lelo.
Ele então disse que eu escrevesse qualquer coisa, qualquer ideia. E ali mesmo, sentado no chão, com um bloco e uma caneta, fiz uma sinopse.
Não era novidade. Na realidade, era o mesmo roteiro que tinha sido proibido, só que mudei os ambientes e os personagens. Ao invés do coronel, coloquei um dono de gravadora; ao invés do soldado galã, coloquei um cantor; no lugar da competição esportiva, coloquei um concurso de calouros.
Ninguém percebeu. O Aurélio leu a pequena sinopse e disse: “Acho que dá um filme. Olha isso, Jarbas.”
O Jarbas leu e sua feição foi modificando. Começou a falar, alegre: “Nessa cena, eu coloco o Renato e Seus Blue Caps; nesta, eu coloco The Fevers...” E assim sucessivamente.
Para ele, Jarbas, que era irmão do Chacrinha, colocar os músicos era fácil; ninguém cobraria e daria publicidade. O Chacrinha era um rei dentro da televisão e faria uma boa divulgação do filme. Na mesma hora, o Aurélio me perguntou em quanto tempo eu faria um roteiro. Respondi que em uma semana. Contrataram-me no ato; e, no dia seguinte, comecei a escrever na casa do diretor, pois lá eu podia almoçar de graça. Fiz primeiro a estrutura aristotélica, com começo, meio e fim, como era em todos os filmes da época. Depois, era só preencher com a ação cênica e os diálogos.
E diálogo era minha especialidade, já que eu estudava Nelson Rodrigues todos os dias.
Eu escrevia rapidamente; e o Renato Aragão, então começando, colocava as piadas ou gags.
E, assim, conseguimos fazer o roteiro em uma semana ou quinze dias, não me recordo.
O filme foi um sucesso tão grande que, no dia seguinte ao lançamento, encontrei o Jarbas na rua. E ele me disse “Chediak, as filas pra ver o filme dobram o quarteirão. Os gerentes estão rasgando as entradas no meio para vender dois ingressos...” Antes, eu havia trabalhado como ator no filme O Homem Que Roubou a Copa do Mundo, do Victor Lima, e feito a assistência de direção de Giorgio Moser (diretor italiano) numa série para a RAI (televisão italiana) baseada em contos de Robert Louis Stevenson. Mas Na Onda Do Iê-Iê-Iê foi meu primeiro trabalho atrás das câmeras para o cinema brasileiro.

O filme tem muitos números musicais. Como foi o desafio de “amarrar” a história entremeada com as músicas?
Como a história se passava num ambiente musical, não houve problemas. No concurso de calouros era fácil: o ator que fez o papel principal foi o cantor Sílvio César e o cantor que disputava o “trono” era o Paulo Sérgio que, na época, imitava o Altemar Dutra e em seguida fez uma brilhante carreira imitando Roberto Carlos.
Ambientei a maioria das cenas em locais que permitiam músicas, como boates, estações de tevê etc. E olha que tinha muita gente: Wilson Simonal, The Fevers, Leno e Lilian, Wanderlei Cardoso, Rosemary, Clara Nunes, Os Vips, Renato e Seus Blue Caps, Ed Lincoln, além do Sílvio Cesar, que era o ator principal. No conjunto do Ed Lincoln, o rapaz que toca baixo sou eu e o baterista era o Miltinho, que hoje está no programa do Jô Soares. Quando você tem uma boa estrutura dramática, as dificuldades são mais fáceis de serem superadas.

Quais foram as suas referências para montar a estrutura do roteiro?
Olha, Rafael, eu gostava mesmo era de John Ford, Elia Kazan, Hitchcock, Fellini etc. Mas, em minha cidade, Três Corações, havia assistido a todos os filmes com Elvis Presley, Pat Boone e outros cantores da época e percebi que as histórias, as estruturas dramáticas, eram iguais. Mais ou menos o que acontece com as novelas de hoje. Então, talvez tenha sido essa a referência para o roteiro.

Renato Aragão e Dedé Santana ajudaram no tratamento do roteiro?
O Renato, sim. Foi ele quem criou as piadas, as gags. Não interferiu na estrutura, pois ela estava bem costurada. E, quando se tem uma estrutura assim, não se deve mexer, porque pode desmoronar tudo. O Renato é muito profissional. Por isso, fez essa brilhante carreira que conhecemos.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
O cinema é a arte do diretor, e o Aurélio era muito seguro em sua direção. Ele sabia tudo, da maquiagem à luz, da interpretação à montagem. E não achava bom o ator participar da parte técnica. Por gostar de meu trabalho como roteirista e assistente, ele permitiu que eu participasse de tudo, até o lançamento. Compreendia que eu estava aprendendo direção e, como ele, precisava entender de tudo. Mas o Renato, que estava começando na televisão, partiu para outro trabalho logo que as filmagens terminaram.

O argumento é seu também?
Sim.

O filme foi dirigido por Aurélio Teixeira. Como foi trabalhar com ele?
Foi ótimo. Ele entendia de tudo o que se refere ao cinema, e aprendi muito. Fizemos até uma parceria e trabalhamos juntos em: Mineirinho Vivo ou Morto, com o Jece Valadão e Leila Diniz nos papéis principais; Juventude e Ternura (com a Wanderléia, o Ênio Gonçalves como galã e Anselmo Duarte como o bandido), Os Mansos, com Jardel Filho, Sandra Bréa, Felipe Carone, Ary Fontoura, o próprio Aurélio como ator (excelente). Também eu fiz um papel e dirigi um episódio.
Como galã da história que dirigi, convidei o Paulo Coelho, que, mais tarde, se tornaria escritor de sucesso em todo o mundo. Mesmo depois de eu já ter dirigido Navalha na Carne, voltei a trabalhar com o Aurélio Teixeira. Foi em Meu Pé de Laranja Lima, no qual dirigi os atores infantis, pois o Aurélio não tinha muita paciência com criança.

Quais as suas principais recordações desse filme?
São muitas. Fiz amizades com pessoas que admirava, como Mário Lago, por exemplo, do qual fui amigo até sua morte e chegamos a escrever um roteiro juntos (mas isso é outra história). Leila Diniz era minha companheira de papos, já que ela era amiga de Gracinda e ia todas as noites na casa do Aurélio; e, terminado o trabalho, íamos juntos até a TV Rio, onde ela se encontrava com o Henrique Oscar, seu namorado na época. Depois, ela trabalhou conosco em Mineirinho Vivo ou Morto. Enfim, todo filme é uma história, uma vida.

Você construiu uma grande trajetória no cinema, assim como Renato e Dedé. Qual a importância desse filme na sua carreira?
Como foi meu primeiro filme brasileiro atrás das câmeras, vi, de cara, como é fazer um filme em nosso país. Aprendi muito a técnica, tomei intimidade com a câmera, com produção, direção, montagem, sonorização, mixagem etc., coisa que me foi útil para os filmes que dirigi.

Imaginava que esse filme era só o começo de uma grande trajetória no cinema de Renato e Dedé, que, futuramente, iriam criar Os Trapalhões e “dominar” o cinema do país?
Percebi que o Renato era um grande trabalhador e amava seu trabalho. O Dedé gostava muito da direção, também. Vivia me perguntando sobre lentes, movimentos de câmeras etc. Eu vi logo que fariam uma grande carreira na tevê, mas eles foram além: fizeram uma grande carreira na televisão e no cinema, o que é muito difícil, em todo o mundo.

Já dava para perceber o talento deles dois?
Claro. O talento e a disciplina. E que tinham garra. Por isso, fizeram uma carreira brilhante. Fazem parte do imaginário do País.

Nos números musicais, além de várias canções compostas e interpretadas por Sílvio César, há ainda a apresentação de diversos artistas de sucesso da época: Paulo Sérgio, Wilson Simonal, Wanderley Cardoso, Rosemary, Clara Nunes, The Fevers, Os Vips. A escolha desses artistas foi sua?
Não. A escolha foi do Jarbas, talvez orientado por seu irmão, o Chacrinha. Aliás, o filme se passa, em grande parte, no programa do Chacrinha. Tem uma cena no filme, no programa do Chacrinha que, se você prestar a atenção achará no auditório o Jece Valadão, a Gracinda e alguns atores da época. Eles estavam na TV Rio, onde foi feita a cena, e assistiram às filmagens do auditório, onde foram filmados.

Por que, após esse filme vocês não trabalharam mais juntos?
O Renato viu meu trabalho escrevendo o roteiro e no set de filmagens e, depois do filme, convidou-me para fazermos outros filmes. Mas eu não aceitei, achei que ainda não estava preparado para dirigir. O J. B. Tanko aceitou e fez grandes sucessos com a dupla. O Tanko era um diretor tarimbado, muito bom. Eu precisava fazer mais assistências, aprender mais.

Qual a sua avaliação a respeito do cinema dos Trapalhões?
Muito boa. Lembro que os assistia junto com as crianças; e elas riam sem parar, imitavam o Renato, o Dedé, o Zacarias, o Mussum. Meu filho, o músico Yassir Chediak, me fala dos Trapalhões até hoje. Eles fizeram parte da alegria de gerações.

Que representou, em termos de linguagem cinematográfica, o cinema dos Trapalhões?
São comédias muito benfeitas, bem dirigidas, com uma turma de grandes artistas. Sua linguagem influenciou muito a nova geração de comediantes.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
A velha crítica. A nova crítica é feita por pessoas que cresceram vendo Os Trapalhões e têm uma visão diferente. Não só deles, mas do cinema brasileiro como um todo. Hoje, todo mundo que gosta de filmes compreende a importância dos Trapalhões na história de nosso cinema.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular.
Bom, quem ia fazer a mocinha era uma atriz de nome, já consagrada, conhecida do grande público. Para fazer o teste de fotografia com roupas, ela levou uma garota como ajudante.
Era no estúdio do Herbert Richers. O Aurélio fez o teste, me chamou à sua sala e disse: “Chediak, dirija o teste com a garota que está com a fulana.” Chamei o fotógrafo disponível na hora e fiz alguns ensaios fotográficos. A garota era fotogênica, reagia etc. Foi ela a escolhida. Era Valentina Godói. Outra coisa interessante é que, anos depois, diziam que quem iria fazer o papel era a Leila Diniz, mas que o Aurélio a substituiu. Não é verdade. Como disse acima, Leila Diniz ia todas as noites à casa do diretor e era nossa amiga. Já estava escalada para um próximo filme: Mineirinho Vivo ou Morto. Ah, um caso que presenciei e ri muito: fomos filmar na casa de um milionário, na Gávea. A senhora, dona da casa, já idosa ficou maravilhada, quando viu o Mário Lago. Lá pelas tantas, começaram a falar do regime militar e a senhora disse: “Sr. Mário, dizem que na Rússia comem criancinhas. É verdade?” Como sabemos, o Mário era um comunista de carteirinha. Então ele olhou para a tal mulher e respondeu, sério: “É verdade, minha senhora. Bem assadinhas são uma delícia!” Ela fez o Sinal da Cruz e caiu na gargalhada, enquanto o próprio Mário fazia força para não rir.

Os Trapalhões: Bia Seidl


BIA SEIDL
Atriz


Você atuou no filme Os Trapalhões e o Mágico de Oróz. Como e por quem recebeu o convite para atuar nesse filme? Como foi a experiência?
Era apenas uma cena, na qual eu fazia a Virgem Maria. Poder representar a mãe de Jesus foi realmente muito emocionante.

Que representava, naquele período, atuar em um filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Tinha esse sonho como atriz. Estar ao lado deles sempre significou uma espécie de graduação na carreira.

Esse foi o primeiro filme após a reconciliação do quarteto, que havia se separado em 1983. Como você viu esse reencontro? Havia algum resquício da briga? Como foi o seu contato com o quarteto (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias)?
Foi maravilhoso em todos os sentidos, poder conhecê-los e sentir como eram amorosos e simples. Uma aula de comportamento profissional e generosidade.

Logo depois, você foi novamente convidada a trabalhar com o quarteto. Dessa vez em Os Fantasmas Trapalhões.
Ser uma das mocinhas dos filmes deles era selo de garantia. Quando recebi a ligação, mal pude acreditar!

Quais as suas recordações desse trabalho?
Muita alegria, risadas, carinho e aprendizado.

Nesse filme o quarteto reedita uma parceria de sucesso com o cineasta J.B.Tanko. Quais as lembranças de trabalho com esse diretor?
Como todo diretor deve ser: rígido e amoroso. E, pra mim, um querido!

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Por puro preconceito e ignorância.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Comédia da melhor categoria, poesia em sua essência.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato que tenha presenciado como testemunha ocular.
Apenas posso dizer que me sinto agraciada pela oportunidade que tive. Comecei minha carreira trabalhando com grandes atores e Os Trapalhões têm lugar de honra no meu coração.

Os Trapalhões: na Bloch


OS TRAPALHÕES

O HUMOR NA BASE DO PASTELÃO

Em 1964, um homem deixava a cidade de Sobral, no Ceará, e desembarcava no Rio de Janeiro. Na bagagem, trazia muitos sonhos e planos. Mas o sonho principal era vencer como humorista e fazer rir todo o país.

No começo, como em todo o início da realização de um sonho, foi muito árduo e muitas vezes ele pensou em retornar ao Ceará. Mas, no final, falava mais alto sua perseverança e a certeza em seu inesgotável talento. Sua garra o empurrava para a frente, para que ele concretizasse o sonho. O que foi ótimo para nós, pois sentimos alegria e damos gostosas gargalhadas, vendo-o e aos seus parceiros, nas suas impagáveis trapalhadas. Porque o que eles fazem melhor, mesmo sendo homens sérios, é graça. Uma graça gostosa e espontânea, que nos transporta para um mundo de alegria e divertimento.

Os quatro conseguem manter os sotaques das pessoas nascidas em suas cidades. Didi faz o gênero do nortista sofrido e se aproveita muito bem disso, embora, às vezes, se mostre esperto o suficiente para se sair bem das encrencas que arruma. O Muçum faz uma mistura de malandro do morro e passista de escola de samba, falando sempre na Mangueira. Zacarias é o mineirinho ingênuo, que consegue sempre desarmar, com a sua ingenuidade típica, o homem da cidade, que tenta se divertir às suas custas e o Dedé é o cidadão fluminense, que está sempre disposto a levar vantagem, tentando ser mais esperto que os outros, mas sempre levando desvantagem em tudo que apronta para cima dos três.

Antes de ser formado o quarteto que hoje são OS TRAPALHÕES, Didi – Renato Aragão – testou várias pessoas na tentativa de encontrar os parceiros ideais, o que só ocorreu com a descoberta do Dedé, do Muçum e do Zacarias. Os quatro, juntos, formam o que de melhor existe no humor brasileiro, conseguindo, até, quebrar recorde de bilheteria no cinema nacional, algo muito difícil para humoristas brasileiros. Eles conseguem sucesso em tudo que fazem, nos mostrando que o talento e a perseverança quebram todas as barreiras e preconceitos.

O nome TRAPALHÕES surgiu por causa da forma de humor do Didi, que sempre arruma trapalhada, mesmo agindo certo e da bagunça que é feita, tudo na base do pastelão. Nós torcemos para que eles continuem, por muito tempo ainda, como os TRAPALHÕES, capazes de nos transmitir o riso gostoso e fácil.

Texto publicado na revista Super-Trapalhões nº 1 – 1986. Edição de Bloquinho – Bloch Editores S.A.

Os Trapalhões: em Portugal


OS TRAPALHÕES: SUCESSO EM PORTUGAL

No ar pelo canal português SIC, o programa dos Trapalhões é líder absoluto de audiência e já conquistou os corações da terrinha.

Tudo bem, Charles Chaplin (o bom e velho Carlitos) é o mestre do humor do nosso século. Mas o Brasil também possui o seu mestre: o cearense Renato Aragão, que se tornou mais conhecido entre a criançada como Didi. Ou melhor: Didi Mocó Sonrisal Colesterol. E não é só no Brasil que Didi e sua turma conquistaram crianças de todas as idades. O mesmo tem acontecido em Portugal, onde Renato Aragão e o inseparável Dedé Santana são líderes de audiência.

Tudo graças ao programa Os Trapalhões em Portugal, que encabeça a audiência da TV lusa. No ar já há alguns meses pelo canal SIC, o humorístico tem atingido constantemente picos de 28,5 pontos de audiência, na frente das populares novelas brasileiras.

Não é demais lembrar que não estamos falando de reprises, mas de material inédito, gravado especialmente para nossos amigos da terrinha. Renato Aragão, Dedé Santana e o Sargento Pincel são os únicos brasileiros no elenco, de resto formado inteiramente por portugueses. Para se ter uma ideia do sucesso, o programa infantil que está em segundo lugar na audiência atinge 10 pontos a menos que Os Trapalhões.

No Brasil, a coisa não é diferente. Em uma pesquisa feito no inicio do ano, por um instituto paulista, foi perguntado a pessoas de todas as classes sociais quem já tinha dado mais momentos alegres para o Brasil. O rei Pelé e Ayrton Senna empataram em primeiro lugar, apontados por 96% das pessoas. Nossos Trapalhões vinham logo em terceiro, considerados por 87% dos entrevistados os sujeitos que mais tinham dado ao brasileiro momentos alegres e divertidos. Momentos que, no que depender da gente, também estarão nessa revista.

Texto publicado na revista As Aventuras do Didi. Bloch Editores S.A. Edição nº 1. 1996.

domingo, 16 de abril de 2017

As HQs dos Trapalhões


Matéria de capa do jornal "Diário do Grande ABC".

sexta-feira, 14 de abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

A Bruxa do Chocolate


"Rap da Bruxa do Chocolate". Letra e vocal: Zuzu Leiva. Produção musical e arranjos: Paulo Bira. Videoclipe: Ricardo Botini. Ilustração coelha: Guilherme Resende. Inspirado no livro "A Bruxa do Chocolate", de Rafael Spaca com desenhos de João Spacca. Editora Laços.



terça-feira, 4 de abril de 2017

sábado, 1 de abril de 2017

Os Trapalhões: a série


Hercilia Cardillo, editora de som de filmes como "Atrapalhando a Suate"; "O Trapalhão na Arca de Noé", "A Filha dos Trapalhões" e "Os Trapalhões e o Rei do Futebol" é a terceira convidada da série "O Cinema dos Trapalhões, por quem fez e por quem viu". A série é uma parceria da TV Cidade com a Editora Laços. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=xlaZj1nes_s

Os Trapalhões: Benício


BENÍCIO
Cartazista, ilustrador


Como surgiu o primeiro convite para trabalhar com Os Trapalhões? Eles já tinham referência do seu trabalho. Por isso, o contato?
Surgiu devido ao meu trabalho com cartazes de cinema já estar consolidado.

Seu trabalho tem uma característica sensual muito forte. O senhor retratou grandes mulheres do cinema nacional em imagens definitivas que hoje se tornaram clássicas. Como é desenvolver cartazes para o público do cinema infantil? Quais as preocupações que se deve tomar, especialmente nos filmes dos Trapalhões?
Focar a ilustração mais para o lado da ação e evitar o erotismo.

Os Trapalhões fizeram mais de quarenta filmes. Destes, qual é o cartaz que considera o mais genial e o que menos gostou?
O que eu mais aprecio é de O Cinderelo Trapalhão. O de A Princesa Xuxa e Os Trapalhões não aprecio tanto, por ter havido interferência no meu trabalho.

Essa interferência foi da Xuxa?
A interferência foi administrativa. A Xuxa tinha um contrato cuja uma das cláusulas era que só podia ser ilustrada por um profissional determinado por ela.

A história que se conta – e só o senhor pode confirmar – é que o único Trapalhão que dava “pitaco” no seu trabalho era o Dedé Santana, pedindo, entre outras coisas, para deixá-lo mais bonito do que ele realmente era. Isso procede?
Ele não dava “pitaco”. Apenas sugeria que eu o deixasse mais bonito.

Neste mês de janeiro de 2015, Renato Aragão foi perguntado pela revista Playboy se mudaria algo em seus filmes se assim pudesse ser feito. E ele disse: “Eu mudaria, sim. Antigamente, nas fotos de cartaz, botávamos os heróis, os quatro Trapalhões, de revólver na mão. Hoje, eu nunca colocaria uma arma na mão dos heróis. Isso não pode jamais.” Gostaria que comentasse essa declaração dele.
Não me lembro de ter enfatizado em minhas ilustrações armas de fogo nas mãos dos Trapalhões.

O que significou em sua trajetória artística essa parceria com Os Trapalhões?
Grande parte do sucesso do meu trabalho devo aos Trapalhões.

Os Trapalhões: Bárbara Mendonça


BÁRBARA MENDONÇA
Figurinista


Como surgiu o convite para trabalhar com Os Trapalhões?
Comecei a trabalhar com figurino e direção de arte em 1982. Morava no Jardim Botânico; e a produtora do Renato Aragão era próxima à minha casa, antes de ele ter seus estúdios, a R. A. Produções, que anos depois seria construída na Barra. Na época, a profissão de figurinista nem tinha tanto destaque, era o começo de uma época de mais cuidado com a estética no filme brasileiro. Então, encontrei, na esquina de casa, um amigo, técnico de som, que estava saindo da produtora e falou que havia me indicado ao Del Rangel, que era o diretor e sobrinho de Renato. Fui chamada e entrevistada, juntamente com outros indicados, e fui contratada. Era o filme O Trapalhão na Arca de Noé.

Antes de iniciar essa parceria profissional com eles, você já acompanhava os seus filmes?
Olha, eu sabia do “fenômeno” de bilheteria que vinha acontecendo com os filmes dos Trapalhões, que eram dois por ano, um para as férias de verão e outro para as férias de julho. Eram filmes certos e cobiçados pelos profissionais freelances, pois a produção dava boas condições de trabalho e era bem paga. Mas, talvez porque meus filhos tinham menos de três anos, eu nunca tinha ido vê-los no cinema, ao escolher um filme. Acompanhava de longe, as histórias, o programa de televisão com os Quatro Trapas, como eram carinhosamente chamados. Mas O Trapalhão na Arca de Noé, segundo filme que assinei como figurinista, foi o primeiro que fui ver na telona, na pré-estreia para crianças, num domingo pela manhã no saudoso Cine Rian, na Avenida Atlântica, levando meus filhos, assim como os outros membros da equipe fizeram. Foi uma farra.

Quais as suas principais recordações dos bastidores de filmagens com Os Trapalhões?
Era literalmente muito divertido! As filmagens envolviam viagens. Eram produções com ótima estrutura, excelentes técnicos e boa remuneração. Lembro que, nesse primeiro filme que fiz, fomos para o pantanal mato-grossense e foi muito lindo o processo nesse lugar ainda bem inóspito. Lembro-me do Renato muito bem-humorado e ágil, subindo em árvores com uma facilidade que me espantou... Ele e os outros três Trapalhões tinham dublês; mas muitas vezes o Renato dispensava o dublê e tomava a frente da ação, encarava às vezes um jacaré, uma briga, uma corrida. E depois, nesse mesmo filme, que por sinal teve a primeira participação da Xuxa, seguimos para Pousada do Rio Quente, em Goiás. Tinha sempre bastante merchandising envolvido; e, nesse caso, ficamos muito bem instalados nessa espécie de resort no meio da floresta, além das paisagens incríveis para as tomadas. Posso dizer que foi uma experiência de trabalho que deixou saudades e ótimas lembranças. A equipe se divertia muito nos bastidores. Os técnicos das diferentes áreas acabavam ficando amigos, pois outros filmes aconteciam em seguida, muitas vezes repetindo equipe.

Você trabalhou como figurinista nos filmes dos Trapalhões. Como era o seu processo de trabalho nesses filmes?
Com esse primeiro filme que fiz aconteceu uma coisa bem atípica. Renato teve uma dissidência artística e profissional com Dedé, Mussum e Zacarias no processo de pré-produção. E essa crise gerou dois filmes: O Trapalhão na Arca de Noé, do Renato; e Atrapalhando a Suate, se não me engano era esse o nome, dos outros três, que criaram uma produtora à parte, a DeMuZa. Foi uma separação que não deu certo, rachou equipe, público, não foi bom para ninguém. Tanto que eles se entenderam e voltaram a filmar juntos. Comecei o processo de criação com um roteiro para uma história com os quatro. As coisas não se definiam, não tínhamos acesso aos outros Trapalhões, só ao Renato, que todos os dias estava na produtora. Eles finalmente abriram a situação, e entrou o Sérgio Mallandro. O roteiro foi alterado, pelo próprio Renato. Então, foi tudo bem corrido; mas o figurino teve todas as condições para cumprir cronogramas. Refizemos o projeto do figurino com as mudanças para posterior aprovação do Del Rangel e do Renato. O Renato se envolvia em todos os departamentos, sabia bem o que funcionava com os filmes em truques, piadas, e em relação às suas roupas e tipos também. Mas era uma interferência normal. O método de trabalho, nesse e nos outros filmes, era bastante artesanal. Fazíamos tingimento e envelhecimento das roupas no quintal das produtoras, que foram várias, pois nem sempre o Renato assumia o total controle de sede de produção e produção executiva. As roupas eram confeccionadas numa garagem, geralmente com duas costureiras. Era muito agradável e criativo.

Você também trabalhou como diretora de arte. Conte sobre o seu trabalho nessa área.
Trabalhei na direção de arte em vários outros projetos, com Os Trapalhões. Eu adoro esses dois departamentos num filme, que caminham juntos e se complementam. Mas acabei preferindo o vestuário; e, desde 1990, só trabalho com figurino. Seria minha segunda escolha. E aprendi muito, exercendo as duas funções ao mesmo tempo, pois tive a visão da estética num trabalho em conjunto. Foi excelente para a meu trabalho com o figurino, deu-me uma abrangência que me vale muito em palestras e aulas que dou. Até porque é fundamental o entrosamento do figurino com a direção de arte e fotografia na narrativa visual do projeto. Foi fundamental para minha formação.

Renato Aragão, Dedé, Mussum e Zacarias tinham como característica a irreverência. Até nos bastidores das filmagens, eles brincavam muito. Isso procede? As filmagens eram descontraídas?
É fato! Eles eram totalmente gaiatos. Havia o pulso do diretor, claro, que variava em cada filme e dava o tom. Mas eles eram bem divertidos e tranquilos de trabalhar.

Como era o seu contato com o quarteto (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias)?
Renato se envolvia do roteiro ao cenário e figurinos, passando pela trilha. E havia sempre uma última palavra dele. Mas sempre foi legal, bastante tranquilo mesmo, lidar com todos eles. E, embora se envolvessem menos nos processos de criação e produção, especialmente Zacarias e Mussum, tenho ótimas lembranças. Era muito lúdico o trabalho com eles. Envolvia figurinos não realistas e sempre variando em relação ao tema do roteiro: circo, guardas florestais, cangaceiros, bandidos; enfim, bem diversificado e criativo.

Que representava, naquele período, trabalhar num filme dos Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Nossa, era a “menina dos olhos” dos técnicos de todas as áreas. Como se sabia serem dois bons trabalhos a acontecer com certeza, todo mundo queria entrar na produção. Era uma honra, uma sorte, um trabalho com muito prazer. Era isso: um prazer remunerado que, além do mais, dava visibilidade ao trabalho do profissional.

Quem era o maior comediante do grupo?
Meu predileto era o Mussum. Muito espirituoso, de uma forma nata. Mas o maior, mesmo, com certeza, é o Renato Aragão. Acho que ele nasceu com um dom muito dele e levou adiante até hoje.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Sim, sim, acompanhava tudo! O figurino ele tinha bem esboçado na cabeça. Eu ouvia muito ele, para entender o que ele queria; depois, sugeria detalhes que achava que iam enriquecer o personagem. Ele aceitava, mas dificilmente abria mão da camisa listrada e do sapato Kildare, que dava conforto e agilidade para ele.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Olha, eu acho que, até um certo tempo, ele trazia coisas bem originais, com equipe de qualidade artísticas. Havia essa preocupação. Era uma época bem diferente de agora, sabe; e ele navegou num filão do apelo das crianças. Mas, para mim, o que pegou foi roteiro, que eram medianos, apesar da intenção de entretenimento infantil e para a família. E também repetitivos. Vamos combinar que é muito difícil fazer dois longas de qualidade em um ano. Acho que o roteiro foi o grande vilão.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Acho que era um cinema feito em equipe, claro; mas como uma família. Até porque tinha muitas pessoas da família do Renato Aragão e de Marta, sua primeira esposa, que vieram do Ceará e se aventuravam em departamentos variados, com os quais tinham afinidade. Pode se falar num nepotismo temporal, pois muitos desses familiares não duraram por vezes dois filmes, encontraram outros rumos mais acertados; e nepotismo relativo, pois tinham sempre técnicos de excelência nos projetos. E, por mais que ele, Renato, variasse sempre nas parcerias com produtor executivo e diretor, nunca deixou de ser o mentor de tudo, com o riso e o entretenimento para as crianças em primeiro lugar, com pureza sempre como objetivo final. Então, vejo como um tipo de cinema que, apesar das variações dos colaboradores da equipe, se sustentou muito bem na proposta por bastante tempo, haja vista o sucesso de bilheteria. Só que esse tempo passou, os desenhos animados tomaram muito vulto nesse segmento. As crianças são sempre as crianças, mas o foco dos tempos atuais é outro. Por isso, não vejo mais espaço no mercado para o Renato e no caso, Dedé, os Trapas que ainda vivem. Ficou uma relação defasada; mas de carinho, com esse público. Foi bom, mas passou.

Os Trapalhões sempre “brincaram” em parodiar filmes e clássicos estrangeiros de sucesso para o cinema. Que pensa a respeito dessa linha que eles seguiram?
Essa foi a grande sacada do Renato, de trabalhar com os arquétipos e brincar com eles. Esse é o segredo do sucesso dos seus filmes. Considero um gancho bem popular.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular.
Várias coisas me chamaram a atenção. Mas acho que, de tudo o que presenciei, destaco a fidelidade do Renato aos atores que ele trazia para os filmes e manteve enquanto duraram seu programa. Os dublês, inclusive, pessoas de circo que tinham seu biotipo e dos outros Trapas, e os acompanharam por décadas nas sequências de acrobacia, cenas de perseguição etc; cenas que havia muito nos filmes. E também, especialmente num filme que fiz em 1991, com somente ele, Mussum e Dedé, houve um fato que me chamou demais a atenção. O simbolismo da coisa. Renato havia se separado da primeira esposa, e estávamos filmando em Manaus. Então, chegou a jovem, hoje esposa dele, que me contou na lancha camarim de Renato, enquanto eu preparava as coisas para uma próxima cena, que ele era o ídolo da infância dela. Quando adulta (coisa de quarenta mais jovem do que ele), encontraram-se profissionalmente num evento que ela produzia. Ela se apaixou por ele; e ele, por ela. E vivem felizes para sempre. Conto isso como exemplo dos Trapalhões, mitos de toda uma geração, que assistia a seus programas e, posteriormente, os filmes. E a penetração deles foi tão forte que se perpetuou, digamos assim, através da filha de Renato Aragão, hoje atriz também. Conto esse fato porque acho forte essa “mão do destino” ou o que quer que seja que determinou isso.