segunda-feira, 1 de maio de 2017

Os Trapalhões: Breno Moroni


BRENO MORONI
Ator


Você atuou no filme Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva, sua estreia no cinema com eles (antes já tinha atuado em dezenas de filmes). Como e por quem recebeu o convite para atuar nesse filme? Como foi a experiência?
Olha, eu fui convidado pelo próprio diretor, o José Alvarenga Júnior. Na época, eu fazia bastante cinema. Ele me convidou; e foi uma experiência incrível, porque o José Alvarenga é um dos maiores, melhores e mais experientes e mais práticos diretores cinematográficos do Brasil. O José Alvarenga tem uma coisa que combina muito com Os Trapalhões, que é o talento para o improviso e a rapidez. Eles trabalham muito rápido, filma muito rápido, tanto Os Trapalhões como o Alvarenga. Então, é uma escola de cinema que tem muito da televisão, que é a objetividade.

Que representava, naquele período, atuar em um filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Em relação às bilheterias, eu nunca me preocupei com isso. Porque ganhava cachê. Eu ganhava uma coisa certa; então, não dependia de bilheterias. Mas, de qualquer maneira, o sucesso de bilheteria significava o sucesso de ser reconhecido nas ruas como uma pessoa que trabalhou com Os Trapalhões. Tem sempre alguém aí de meia-idade que vem me dizer: “Na minha infância, eu via muito você nos filmes dos Trapalhões, era muito bom, gostava muito.”
Então, esse sucesso aconteceu, sim; mas não tinha nada a ver com bilheteria no meu caso. Foi uma experiência muito boa. Eles são bastante profissionais. Eu lembro uma vez que teve a estreia de um dos filmes; Os Trapalhões se atrasaram por causa de um voo, e eu tive que substituí-los no palco para uma plateia de milhares de pessoas. Tinham milhares de pessoas lá; e eu tive que ficar improvisando durante muito tempo, por uns quarenta, cinquenta minutos... Não me lembro bem, mas fiquei entretendo o público que esperava Os Trapalhões; e eles não chegavam. E no meu improviso eu usava técnicas de linhas de improvisação deles e fui brincando com o povo e tal; e deu certo, porque a plateia nem percebeu que eles estavam tão atrasados, ficou parecendo até uma introdução da apresentação deles que eles fizeram assim que chegaram.

Nesse filme você tem a oportunidade de trabalhar com não-atores, como Angélica e Luma de Oliveira. Como é para você, com tanta experiência no currículo, contracenar com estrelas populares, mas que não são atrizes?
Em relação à Luma de Oliveira, a gente não teve muito relacionamento, não. Foi mais um trabalho técnico. Não chegamos a papear muito, não. Agora, com a Angélica foi muito bom. Ela era muito nova; e nós começamos a conversar sobre política, tema que as pessoas não conversam com ela; e ela era uma pessoa muito preocupada com o Brasil. Naquela época, ela tinha sido convidada pelo Fernando Henrique Cardoso para ir a Brasília para representar artistas em alguma solenidade; e ela veio conversar comigo, pedir minha opinião se deveria ir ou não. E eu disse a ela que nós, artistas, temos muito mais poder que qualquer político. E, por isso ela, deveria manter a posição dela de não servir de garota-propaganda de nenhum político, porque ela era muito mais poderosa que qualquer político.

No ano seguinte você volta a trabalhar com ele em A Princesa Xuxa e Os Trapalhões. Como surgiu esse convite?
Eu não lembro como surgiu o convite; mas, na época, eu trabalhava tanto com a Xuxa quanto com Os Trapalhões, com o Alvarenga e com o pessoal da Ponto Filmes. Era uma turma que fazia cinema no Rio de Janeiro, e eu participava dessa turma. E foi muito bom, pois eu conhecia a Xuxa há muito tempo, do tempo da TV Manchete, do tempo dos desfiles, participamos de desfiles juntos. A Xuxa sempre me pareceu uma profissional exemplar, uma operária da arte dela, do ofício dela, independente do conteúdo, que às vezes é questionado. Mas ela chega sempre na hora, está sempre pronta, ela arruma suas coisinhas no camarim, as suas maquiagens, coisinhas bobinhas. Ela é educada com todo mundo, nunca vi ela dar um chilique, ela é uma excelente profissional.

Como foi o seu contato com o quarteto?
Era com os quatro sempre na hora das cenas; no intervalo, a gente se dispersava um pouco. O Renato gosta de ficar no camarim quieto, concentrado. Com cada um era uma história. Com o Dedé, eu tinha conversas meio espiritualistas; com o Mussum, era mais umas brincadeiras, umas piadas, ele era uma pessoa muito divertida. O Zacarias falava pouco; por incrível que pareça, era um homem tímido. E o Renato, como eu disse, era mais na dele, ficava concentrado. Pouca conversa à toa, as conversas eram mais profissionais: falávamos de coisas relacionadas às cenas, às ações, aos efeitos, os dublês.

Uma Escola Atrapalhada foi o último filme com a participação de Zacarias, que faleceria naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido, numa cena curta. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
No filme, Uma Escola Atrapalhada, minha filha, Joana Moroni, também participou. Eu não me lembro do Zacarias doente. Eu me lembro dele alegre, brincando, ou seja, sendo o Zacarias. Eu nunca me dei conta de que ele estava tão doente. Talvez eu tenha achado ele mais magro; mas, quando filmávamos com Os Trapalhões, era sempre um ambiente de muita alegria, muita festa, cordialidade, solidariedade. Então, eu acho que essas coisas encobriram. E, naturalmente, ele entrou nessa onda de não se deixar abater, né? É compreensível. A pessoa, quando está num momento triste na vida, a vida no cinema se torna melhor que a vida real.

O personagem de Zacarias, assim como os de Dedé Santana e Mussum, fez apenas uma breve aparição. A sensação é que pareciam figurantes no filme. Isso procede?
Foi pequena, assim como a minha foi muito pequena nesse filme. Mas isso foi numa época em que o cinema usava muitas pessoas, elenco grande, participações pequenas de pessoas bem famosas como éramos considerados na época.

Após esse filme, você trabalhou em mais um filme com Os Trapalhões, O Mistério de Robin Hood, o quarto e último da parceria. Por que foi o último?
Foi muito bom. Eu pude não só realizar meu trabalho de ator, mas também das minhas pesquisas e estudos em relação a dublê, aquelas cenas de carros correndo, de porrada, de luta. Os Trapalhões também me deram essa possibilidade. Eu estudei técnicas de dublê na Inglaterra e acabei virando diretor de dublê. Continuei as pesquisas no Ceará e no Rio de Janeiro e nos filmes dos Trapalhões eu podia aplicar todo o meu conhecimento, todas as acrobacias, truques, dar tiros de efeito, de festim. Então, foi bem importante esse filme para mim.

Qual foi a sua percepção, em relação ao clima durante as filmagens, sem o Zacarias?
Fazia falta, era uma quebra. Porque era um trabalho de quarteto. Não existe ator principal, são todos “escadas” uns dos outros, são todos comediantes. Assim como os trabalhos de dupla de atores como O Gordo e O Magro, assim como os trabalhos de trios como Os Irmãos Marx. É um estilo de representação. E é muito difícil, porque a vaidade, às vezes, acaba com esses grupos maravilhosos, como aconteceu com Os Beatles, por exemplo, que acabou se separando porque, talvez, seus integrante não tenham compreendido a extensão, a importância do trabalho em grupo. E Os Trapalhões tinham isso, porque vieram do circo; e o circo sempre foi o coletivo.

Nesse filme, Roberto Guilherme e Tião Macalé participam. Como foi trabalhar com eles, que ajudaram a construir a história dos Trapalhões?
Com o Roberto Guilherme, fiz pouco trabalho direto. Fizemos algumas coisas na televisão. Na TV Globo eu participei de alguns programas deles também. E o Tião Macalé está entre aqueles grande atores com quem eu tive a honra de trabalhar. Ficaria aqui alguns minutos falando de todos os artistas, de todos os mestres da Comédia com quem eu tive a oportunidade de trabalhar na TV Manchete, naqueles programas de Comédia que eles faziam lá. No cinema e no teatro, trabalhei com muitos. E o Tião Macalé é um patrimônio da cultura popular brasileira.

Quem era o maior comediante do grupo?
Eram os quatro. Mas no backstage, nos intervalos das filmagens, o Mussum, com certeza, era o mais engraçado. Eu tenho muita saudade do Mussum, gostava muito dele. Eu era pai solteiro e levava a minha filha nas filmagens; e quem ficava cuidando da minha filha, durante as filmagens e nos intervalos, era o Mussum. Ele vivia com ela no colo, dava beijinhos, carinho. Ele era uma pessoa fenomenal, muito carinhoso, muito amoroso, humilde, muito aberto. E a lembrança maior que tenho é ele com a minha filha, a Joana Moroni, que hoje tem 33 anos, no colo dele, brincando e ele fazendo caretas pra ela.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Sim, ele acompanha toda a produção. Geralmente, os argumentos são dele. Depois, ele participa do roteiro e acompanha as filmagens, faz reunião de cenografia, de tudo.

Acredita que essa característica de Renato o torna diferente, um profissional de sucesso?
Essa característica do Renato não é o que o torna diferente, torna-o normal. O que acontece, talvez, é que esse acompanhamento, essa vontade de ser perfeccionista, isso deve acompanhar todo e qualquer artista. Se você fica deitado na praia esperando a fama, o sucesso, talvez você até encontre um produtor que te chame para fazer Malhação... ou algo do tipo. Mas artistas do nível dos Trapalhões são artistas de treinamento, que estudaram teatro, circo, música. Então, é fundamental que se pratique, que se estude, que se treine, que se ensaie. Atores do nível dos Trapalhões, do nível do Chaplin, eles têm tudo pronto, são atores prontos, são atores que você joga no meio do palco e eles começam a entreter uma plateia, dominar uma plateia, chamar a atenção, fazer coisas interessantes, fazer coisas que ninguém faz. A origem dos Trapalhões é o circo, que é a mesma origem do Chaplin, do cinema mudo, do teatro físico. Para ser um ator de verdade, profissional, há de se estudar sempre, tem que ser como Os Trapalhões: cantam, dançam, representam, fazem acrobacias, fazem de tudo na arte. Penso que é importante falar sobre o Baiaco e o Napoleão, que são os dublês dos Trapalhões.
Eu tive uma relação muito boa com eles; depois, acompanhei-os na vida de circo deles, conheci a história pessoal de cada um. E eles, como muitos naquela equipe, vinham do circo; e o circo era o que fazia o cinema dos Trapalhões se tornar uma família, era uma solidariedade, diferente da televisão, em que o ator é um indivíduo, um produto único. No circo, as famílias se unem para sobreviverem juntas; e Os Trapalhões tinham esse espírito.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Existe essa resistência por falta de cultura. Acho isso uma ignorância, porque são estilos diferentes. Não se pode comparar com filmes do Cinema Novo. Temos que parabenizar as pessoas que fazem arte no Brasil. Os Trapalhões, durante anos, conseguiram fazer dois filmes por ano. Isso era muito importante para o Brasil. Empregava os técnicos, atores. Criava bilheteria, criava empregos. Agora, o que acontece é que existe um preciosismo no cinema nacional, onde algumas pessoas demoram cinco, dez, ou mais anos para realizar um filme.
Então, quando veem Os Trapalhões fazendo filme com os pés nas costas, isso causa uma certa inveja, um certo ciúmes.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular durante essa produção em que você trabalhou com Os Trapalhões.
É preciso falar da Ponto Filmes, do Cacá Diniz e da Yurika Yamasaki, que eram pessoas fabulosas, que tinham todas essas características boas dos Trapalhões dentro da produção. Eram pessoas de fácil lida, muito simpáticos, solidários. Eu acho que Os Trapalhões tiveram o sucesso que tiveram por conta também desses dois, que são pessoas muito valorosas, muito importantes para o cinema nacional. Os dois merecem uma citação em letras de ouro, porque a Ponto Filmes foi, durante muito tempo, um ponto de resistência do cinema brasileiro no Rio de Janeiro.

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