terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os Trapalhões: Denise Fontoura


Denise Fontoura
Montadora


Como surgiu o convite para trabalhar com Os Trapalhões?
Lembro que naquela época Os Trapalhões resolveram mudar a equipe de montagem de seus filmes e começaram a contratar profissionais mais jovens no mercado. Estavam querendo inovar na linguagem e no ritmo de seus filmes. Eu fui uma delas.

Antes de iniciar essa parceria profissional com eles, você já acompanhava os seus filmes?
Sim. Eu sempre tive vontade de trabalhar com eles. Meus filhos eram pequenos na época, sempre íamos nas pré-estreias.

Como surgiu o convite para trabalhar em Atrapalhando a Suate? Em algum momento, Renato Aragão tentou demovê-la da ideia de ingressar na equipe desse filme?
Essa briga foi por conta que o Renato sempre queria a autoria e os créditos de tudo para ele. Os outros três não estavam satisfeitos com esse império dos Aragões e resolveram se separar. O Dedé me ligou, explicou-me o que estava acontecendo, disse que os três iam partir para uma empreitada e perguntou se podiam contar comigo. Eu disse que sim.

A DeMuZa Produções foi criada com o intuito de apenas gerir os negócios dos três humoristas (Dedé, Zacarias e Mussum)?
Sim, a DeMuZa foi a empresa criada pelos três para gerir seus trabalhos e filmes (shows, filmes, comerciais etc.).

Na sua análise, por que a separação durou apenas seis meses?
Com o sucesso de Atrapalhando a Suate, o Renato viu que os três podiam caminhar sem ele, reviu os contratos e a paz foi selada novamente. Os quatro juntos tinham mais força, mesmo que os filme feitos na separação tenham sido sucesso para ambos.

Houve sequelas da separação? Teve receio de ser retaliada por ter trabalhado com o trio dissidente?
Que eu me lembre não houve sequelas. Foi como toda separação de casamento de muitos anos: necessária para renovar a relação.

Tião Macalé atua nesse filme, ele que era considerado o quinto Trapalhão. Quais as lembranças dele?
Sempre muito solícito nos sets de filmagem, muito agradável a convivência com ele.

Os Trapalhões e o Mágico de Oróz foi produzido em conjunto com a Renato Aragão Produções (de Renato Aragão) e a DeMuZa Cinematográfica (fundada por Dedé, Mussum e Zacarias). Foi o primeiro filme do quarteto assim que eles reataram. Havia algum resquício daquela separação nas filmagens? Chegou a constatar algo?
Depois da reconciliação, a paz foi selada e correu tudo bem.

Quais as suas recordações dos bastidores desse filme?
Como em todos os filmes deles, o clima das filmagens era sempre de muito profissionalismo e alegria de todo mundo. Trabalhar com Os Trapalhões sempre foi num ótimo astral.

Você trabalhou também no filme A Filha dos Trapalhões. O filme aborda o problema social dos compradores de bebês por quadrilhas especializadas. Vendem recém-nascidos para famílias ricas, principalmente da Europa. Quais as suas lembranças de trabalho nesse filme?
O tema em si é de muita emoção, recordo-me de muita emoção no set e na montagem também.

Os Trapalhões moram no meio de uma lagoa (Lagoa Rodrigo de Freitas), em uma moradia que lembra muito uma palafita. O número da casa é o 36 (apesar de não terem vizinhos) contendo ainda a frase “Venha viver como você gosta.” Você se recorda dessas referências?
Aquela casa foi construída para o filme. Na sequência do tiroteio, foi muito engraçado: um dos quatro, não me lembro qual deles agora, chegou a cair dentro d’água, muitas lanchas passando, muita marola.

As músicas desse filme foram lançadas no LP A Filha dos Trapalhões, de 1984, que tinha participação especial do ator Arnaud Rodrigues com o personagem Zé Paraíba. Arnaud já havia atuado no filme anterior, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, e seguiu compondo várias músicas para outros filmes do quarteto. Quais as suas recordações de Arnaud? Como era a relação dele com o quarteto?
Arnaud era muito querido, sempre muito alegre, fazia suas brincadeiras e sacaneava todo mundo nas filmagens.

Quais as suas recordações dos bastidores desse filme?
Lembro bem que o filme foi montado na R. A. Produções, uma produtora com estúdio na Avenida Airton Senna. Lá, eu passava a maior parte do dia e parte da noite, trabalhando. A sala de montagem era perto do estúdio onde foi rodada a maior parte do filme. Nos intervalos, o Dedé Santana ia sempre para a sala de montagem, acompanhar o trabalho. Era ele quem acompanhava a montagem.

Como era o seu contato com o quarteto (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias)?
Tinha mais proximidade com o Dedé, pelo fato de ele acompanhar o trabalho de montagem. Com os outros três, sempre era farra e brincadeiras.

Seguindo a ideia de pegar carona no sucesso da literatura, cinema e televisão brasileira para compor paródias, Os Trapalhões chegaram em 1983 ao mundo do cangaço. A fórmula foi tão pensada que aproveitaram até mesmo Nelson Xavier e Tânia Alves para repetir o casal Lampião e Maria Bonita, que haviam interpretado no ano anterior na minissérie da Rede Globo. Não, por acaso também, os mesmos roteiristas da minissérie escreveram o roteiro do filme O Cangaceiro Trapalhão. Doc Comparato e Aguinaldo Silva entraram no clima, para criar uma história divertida que consegue misturar bem o cangaço com as trapalhadas do grupo. De que se recorda desse trabalho?
Acredito que essas características se devem ao fato de este filme ter sido dirigido por Daniel Filho.

Os efeitos especiais desse filme chamam a atenção, a coreografia na parede, o clima, o figurino, o mundo encantado dentro do poço. Como foi trabalhar com esses efeitos?
A cada novo filme, Os Trapalhões inovavam na linguagem. Conviver com essa linguagem foi muito bom, numa época em que os efeitos especiais eram pouco usados no cinema brasileiro.

Como foi trabalhar com Daniel Filho nessa produção?
Foi enriquecedor. Ele sempre inova, a cada trabalho que faz.

Que representava, naquele período, trabalhar num filme dos Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Garantia de trabalho durante o ano todo.

Que tem a dizer do ator Carlos Kurt? Ele teve uma participação muito ativa no cinema dos Trapalhões.
Assim como Carlos Kurt, outros atores participavam de todos os filmes dos Trapalhões. Eram classificados de elenco fixo... Sempre havia papel para esses atores.

Renato Aragão tem fama de ser profissional de excelência, atento do roteiro ao cartaz do filme, perfeccionista. Isso procede?
Procede. Ele não só seguia à risca o roteiro, como inventava cacos na hora da filmagem. É realmente um grande profissional. E, se não gostava de alguma coisa, mesmo com o filme pronto, refazia, até ficar a seu gosto.

Acredita que o cinema era a grande paixão do Renato, mais que a televisão? Na sua visão, de onde vinha essa característica tão profissional do Renato? Dedé, Mussum e Zacarias eram preocupados somente em atuar?
Acredito que ser Trapalhão é a grande paixão do Renato. Nos filmes, ele tinha oportunidades de interpretação, o que nem sempre na televisão era possível, pela linguagem diferenciada, pelo timming. Só no cinema ele tinha esse espaço maior para interpretar.

Quem era o maior comediante do grupo?
Cada um tinha uma característica diferente. Os quatro eram ótimos comediantes.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Não sabia que não gostavam deles.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Magia, comédia pura e pastelão de primeira linha.

Os Trapalhões sempre “brincaram” em parodiar filmes e clássicos estrangeiros de sucesso para o cinema. Que pensa a respeito dessa linha que eles seguiram?
Um ato de muita coragem deles que deu certo.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular.
O que tenho na memória é que aprendi muito com o cinema dos Trapalhões, cinema profissional, feito com a dinâmica de televisão e com o resultado muito cinematográfico. A cada filme que faziam, surpreendiam na linguagem, nas inovações simples e que sempre deram certo. Foi muito bom trabalhar com eles, uma experiência muito rica de emoções, porque eles faziam filmes infantis, dos quais os adultos é que mais gostavam. A energia das crianças sempre esteve presente no astral dos Trapalhões.

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